Opinião
Alma das palavras
Durante um período em que estagiei, no Rio de Janeiro, estive, em mais de uma ocasião, na Editora Civilização Brasileira, acompanhando meu irmão Rui Medeiros, jornalista e escritor, residente no Rio. O slogan institucional adotado pela editora chamava minha atenção: ?Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê?. Lá, conheci o mestre Aurélio Buarque de Holanda, que vibrava, na época, com o sucesso obtido pelo lançamento da primeira edição do Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Era uma figura inesquecível, fisicamente, com o porte semelhante ao do herói grego ?Adonis?; intelectualmente, ele se definia, ?um apaixonado pela alma e mistério contido nas palavras?. Anos depois, como pró-reitor da Ufal e responsável pelos eventos culturais, na administração do reitor Manoel Ramalho, eu tive oportunidade de convidar o mestre Aurélio para participar de eventos na universidade. Sua presença era uma festa. Conquistava rapidamente a todos pela sua comunicação e simpatia. Estive, diariamente, na 4ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas, ocorrida recentemente. Um tanto, pelo desejo de aquisição de obras de minha preferência; outro tanto, pelo acompanhamento cultural do estande da Fapeal, órgão dirigido pelo dr. Tadeu Muritiba. No estande, 18 escritores do melhor porte intelectual lançaram suas obras para deleite de seus admiradores. Numa dessas ocasiões, na Bienal, assisti ao lançamento do evento ?Ano Aurélio Buarque de Holanda?, cujo centenário de nascimento ocorrerá em 2010. Emocionei-me com a presença da esposa dele, dona Marina Baiard de Holanda. Lembro-me do carinho com que o mestre Aurélio a tratava, quando dizia ?que ela não era somente a doce e amável companheira, credora do mais puro afeto e desvelado carinho; mas, também, a colaboradora intelectual de todos os seus livros, superorganizada e de fina visão administrativa?. Dona Marina aprendeu a amar Alagoas e, quando aqui vinha, desdobrava-se nos contactos com suas múltiplas amizades, sempre acompanhada das escritoras Solange Lages Chalita e Tânia Maya Pedrosa. Companheira do dicionarista por 44 anos, ela continua comandando a equipe que, permanentemente, trabalha na atualização do dicionário, com vistas à próxima reedição. Pouco aparece, mas é responsável pelas decisões do grupo de trabalho e responsável maior pelas pesquisas realizadas. A Academia Alagoana de Letras homenageou Dona Marina como ?Guardiã do Dicionário Aurélio ? verdadeiro tesouro da língua portuguesa?. Aos 87 anos, mais de 40 dedicados à obra do marido, ela continua trabalhando diariamente no dicionário?. Uma longevidade produtiva e admirável. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.