MEMÓRIA
Getúlio e Chateaubriand
Getúlio Vargas era uma cordilheira política: foi governador do Rio Grande do Sul (1928-1930), ditador (1930-1945), presidente da República constitucionalmente eleito pelo voto (1950-1954). Apontado como pai dos pobres, fundou o Brasil moderno. Enigmático, na sua passagem sentia-se o vento minuano. Tinha um revólver. Dormia com ele embaixo do travesseiro. Acossado por uma crise que entrou pela porta de sua guarda pessoal. Recusou-se a renunciar. Deu um tiro nos adversários. Que lhe atingiu o peito. Por sua grandeza, não pensou num general Villas-Boas.
Por sua vez, o paraibano Assis Chateaubriand (1892-1968) foi magnata da imprensa brasileira dos anos 30 aos 60. Criou o conglomerado dos Diários Associados, reunindo dezenas de jornais e emissoras de rádio. Inclusive a primeira emissora de televisão, a TV Tupi. Foi um dos fundadores do Museu de Arte de São Paulo – MASP, em 1947. E senador pela Paraíba nos anos 1950.
Dois gigantes da vida brasileira. Numa época em que era possível enxergá-los. Diante de paisagem ora tão empobrecida. É hora, por isso, de prazerosa chance: revisitar Getúlio Vargas. No discurso de posse de Assis Chateaubriand, que o sucedeu na Academia Brasileira de Letras – ABL. Em 27 de agosto de 1955, Chatô assumiu a cadeira que foi ocupada por Vargas. O discurso de posse de Chateaubriand é peça para ser lida. Relida. Degustada. Uma incursão pela alma do Brasil. Por horizontes tão ao gosto de Guimarães Rosa.
Em seu discurso na ABL, escreveu Chateaubriand: “Escolheste, para suceder o fundador do Estado Novo, um antigo professor de Direito Romano e um propagandista das instituições representativas. Fostes, nessa linha de conduta, fiéis à memória de Vargas. Como ele, seguistes a regra dos contrastes. Acredito que a Academia me elegeu como quem busca uma natureza de equilíbrio para tirar o demônio, que há mais de cinquenta anos, ronda esta cadeira”. E prossegue: “Não era Vargas somente a América Latina e a Rússia, Minas e o Rio Grande. Seu tato, sua finura, suas manhas, sua solércia de gato, sua sedução de demiurgo o identifica com o rei de Ítaca”.
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Chatô se volta para o contexto político da Federação: “Um provinciano da fronteira gaúcho-argentina surge disposto a quebrar o tipo clássico dos presidentes mineiros e paulistas. Recusava-se a ser liberal e democrático. Vinha decidido a estrangular os reacionários da liberdade. Tinha o espírito malicioso de Voltaire e agira com o sadismo aristocrático de César Bórgia”. Chateaubriand conhecia bem Vargas.
Conviveu com ele. Continua: “O americano atormentava Vargas por ser ele o homem do dólar, e Vargas desprezava o dólar, que era a consciência materializada do americano, agindo no plano brasileiro, e ele tinha ciúmes desse plano, que era seu, exclusivamente seu, que ele não transferia, no todo ou em parte, a quem quer que fosse”.
Mais adiante, acentua: “É ponto de importância capital no estudo do perfil de Vargas, a gente capacitar-se de que ele não reduzia a vida a termos de bom senso – padrão vulgar e infecundo de viver – mas de imaginação, de aventura, de fantasia.”
E relata uma passagem paulista: “Uma tarde, em São Paulo, Vargas, com o sr. Cândido Motta Filho, na rua 25 de Março, vê este letreiro na porta de um alfaiate: Viram-se roupas pelo avesso. Diz Vargas: – Motta, é o que venho fazendo há vinte e quatro anos com a história do Brasil”.
É do que o país precisa neste século XXI.