Opinião
Crendices mortais
Não são poucas as questões religiosas que despertam vivas polêmicas. E, para além da fé, uma série de crendices, tidas como ?científicas?, são remetidas ao debate mais profundo quando tais concepções podem causar mortes ou danos graves à saúde em função de visões sectárias. Em setembro deste ano, na Austrália, um casal foi condenado por homicídio doloso pelo fato de ter impedido que a filha recebesse o tratamento (alopático) adequado por acreditarem apenas na eficiência dos medicamentos homeopáticos. A vítima dessa crendice fatal, uma menina, chamada Glória, de nove anos, morreu por septicemia e desnutrição. Em Alagoas, nos dias em curso, uma jovem corre sério risco de morte pelo simples fato de sua família opor-se à transfusão de sangue. Em coma induzido há seis dias, depois que sofreu grave atropelamento, a jovem sobrevive com dificuldade na UTI da Unidade de Emergência do Agreste, em Arapiraca. Segundo os médicos, a situação da jovem é de crescente gravidade e a transfusão de sangue é o tratamento mais indicado para ajudá-la a enfrentar as consequências de traumatismo craniano sofrido quando do acidente. Os familiares da vítima, entretanto, lutam contra a ciência médica sob a arguição de serem ?Testemunhas de Jeová?, considerando a transfusão de sangue um pecado mortal ou algo assim. O incrível é que a crendice está vencendo a parada e a jovem vítima, até ontem, não havia recebido o tratamento mais adequado. É hora de a Justiça garantir a vida dessa dupla vítima: atropelada por um veículo e violentada pela ignorância. Segundo o informado, a Unidade de Emergência do Agreste está atenta à situação, respeitando o direito à crendice; mas, no limite, tentará salvar a paciente, com ou sem a autorização dos familiares. Este é o procedimento correto: salvar uma vida, mesmo contra a vontade de alguns.