Opinião
Respira��o assistida
RONALD MENDONÇA * Não sei se esse acordo com o FMI dá motivos para toda essa euforia, até porque o País contraiu mais um empréstimo com um organismo financeiro que está muito longe de exercer os preceitos da propalada caridade cristã, além de tampouco demonstrar vocação para a filantropia. O resumo da ópera é que estamos mais endividados. Como um doente grave que para se manter vivo fica às expensas de determinados aparelhos e de outros cuidados especiais, o Brasil transformou-se num FMI-dependente, impossibilitado de sair dessa UTI da miséria. Recorrer ao Fundo é sinônimo de fracasso financeiro e ninguém precisa ter pós-graduação em Harvard para entender isso. Lembro dos tempos em que Delfim Neto era o croupier da economia brasileira, lá se vão alguns anos. Naquela época, FMI era palavrão, ?fundo-de-poço? etc, com o qual se deveria manter prudente distância. (Apelar para ele seria quase que - entre nós - o mesmo que pedir dinheiro emprestado ao folclórico Benedito Mossoró, conhecido proxeneta, que nas horas vagas mexia com agiotagem). O fato é que passada a fase do ?milagre brasileiro?, os ?papagaios? começaram a se acumular na mesa do ministro Delfim, ao mesmo tempo em que a imprensa sussurrava que o País estaria, por debaixo dos panos, negociando um empréstimo com o FMI, o que foi inicialmente desmentido para logo depois ser confirmado. É também dessa mesma época a ?benemerência? que certos órgãos praticavam com o dinheiro público, concedendo empréstimos com juros muito abaixo dos valores de mercado, bem menores do que pagava a caderneta de poupança, taxas, enfim, simbólicas. Claro que o acesso a essa dinheirama subsidiada era restrita a uma casta privilegiada da sociedade. O esperto empresariado ? quando estava a fim ? deixava parte do empréstimo aplicado na poupança ? para garantir o pagamento ? e o restante servia para crescimento do patrimônio, financiar viagens, carrões e outras farras mais. Trocando em miúdos: o governo patrocinava o enriquecimento de um grupo às custas do sacrifício de uma maioria que não podia sequer reclamar. Hoje, ninguém duvide, boa parte das grandes fortunas brasileiras advém desses esquemas de sôfrega sucção nas tetas oficiais. Por fim, vale lembrar duas coisas: 1) Na época de Delfim & Cia, a dívida brasileira andava na casa dos 25 bilhões de dólares, cifras bem distantes dos quase 700 bilhões atuais... e, 2) Os sangradores dos cofres públicos continuam os mesmos, reciclados, alguns apenas com nomes diferentes. De qualquer forma, reconheça-se, essa nova ?ajuda? do FMI mostra que, mesmo na UTI, não somos a Argentina. Ainda. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL