Opinião
Sem lugar...
WALMAR BUARQUE (*) Toda criança precisa de abrigo e alimento. É claro que um lar e uma família vão oferecer mais do que isso. Precisam mais do que isso: ela precisa de amor e organização. E como ninguém nasce sabendo o que é certo e o que é errado, é na convivência no lugar onde vive que são estimuladas a desenvolver seu senso de moral. Se permitirmos que ela seja criada na rua pedindo esmola, naturalmente ela achará que é da esmola que virá seu sustento e de seus pais, e que essa atitude é digna e é tratada como fosse um trabalho. São nos primeiros anos de vida que virão aflorar seus sentimentos e virtudes. Naturalmente se for dentro de um lar, de uma família organizada, esse sentimento será benéfico a sua auto-estima e de amor ao próximo. Caso seja na rua, na mendicância, no abandono, serão realçados a baixa-estimao rancor, a violência e com certeza afetará toda sua estrutura de cidadão consciente de seus deveres para com a sociedade. Preocupo-me bastante com a falta de vontade política de nossos governantes para com as crianças e adolescentes, principalmente os de baixa renda que, invariavelmente diante do descaso escolar, da falta de professores, da pouca freqüência deles às escolas, a falta de material que vai do mobiliário ao didático e principalmente a falta de estímulo de onde deveria partir, ou seja, dos secretários de Educação que infelizmente vêem no cargo só apenas a possibilidade de manipular mentes e corações para sua sanha de poder. Que pena que tenho desse País e deste Estado, que tratam tão mal as crianças e adolescentes e que às vezes nem tratam, apenas as ignoram. A formação de nosso caráter é orientada pelos ?faça e não faça?, para instruções e exortações com que deparamos em casa, e para aqueles que quando têm casa, não tem o que comer, vestir e tampouco uma cama para dormir. Que estímulos terão para respeitar os deveres para com a sociedade, que almeja tranqüilidade e segurança? Imagine os que nem esse tipo de casa têm, aqueles que vivem na rua, os sem-nada, se quer tem um lugar no mundo. Temos que discutir todas as mazelas do poder público, os desvios de verbas do erário, a má aplicação desses recursos, a falta de escrúpulos políticos etc. etc... Mas temos que exigir uma atitude definitiva, antes que seja tarde, de uma ação moralizadora das gestões políticas no trato de nossas crianças e dos adolescentes abandonados e sendo explorados nas ruas, principalmente em Maceió. Os números são alarmantes, cerca de cento e vinte nove mil famílias estão na miséria absoluta, e nós ontem classe média, hoje pobres telespectadores de uma degradação humana no dia a dia de nossa vida. Nos sinais, nas calçadas, em baixo das pontes e no lixo daqueles que hoje estão sem lugar no mundo. Leia mais textos no site www.catarse.org.br e mande e-mail dando sua opinião pelo [email protected]. (*) É Coord. do Projeto Catarse