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Opinião

A imprensa, o sintoma e a doen�a

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Fato um: o repórter-cinematográfico está filmando a manifestação dos camelôs de São Paulo, quando um policial resolve tapar com a mão a lente da câmera, interceptando o trabalho de registro jornalístico. Fato dois: o fotógrafo é impedido de realizar sua pauta, durante evento oficial na Bahia. Fato três: o jornal O Estado de S. Paulo é proibido, por decisão de juiz de primeira instância, de publicar matéria relacionada às investigações das atividades empresariais de Fernando Sarney. Os registros são preocupantes e pipocam em todas as regiões do Brasil. Além do mais, nos últimos doze meses, houve 31 casos de violação da liberdade de imprensa, decorrentes de sentenças judiciais proferidas por juízes de primeira instância. Se a última grande reunião da Sociedade Interamericana de Imprensa, em Buenos Aires, constatou o recrudescimento do autoritarismo na América latina, em relação à imprensa, o nosso País vem também ofertando sua lamentável cota de contribuição para engordar esses indicadores. Enquanto a Venezuela e o Equador testemunham ordens presidenciais para o empastelamento de jornais, o presidente Lula já chegou a afirmar que o papel da imprensa não é o de fiscalizar, e sim o de noticiar. Aprendem-se nos textos do saudoso mestre Cláudio Abramo que Jornalismo é apuração da informação, é exercício da crítica e fiscalização do poder. Nos embates proporcionados pela democracia, as manchetes contra autoridades costumam posicionar a imprensa como ?sintoma?, ao invés da ?doença?. A imprensa brasileira, que nasceu no exílio, em Londres, sob a pena corajosa do jornalista Hipólito da Costa, acabou de completar dois séculos de história, sempre marcada por curtos períodos de lua de mel com a liberdade e tenebrosos anos de cerceamento e mordaça. Vivemos, portanto, numa profunda contradição. A nossa Constituição Federal dedica generoso capítulo à liberdade de informação, à livre expressão do pensamento. Entretanto, flagra-se, a todo instante, o desrespeito a dispositivos constitucionais. Quem deveria zelar pela lei, em nome do Estado brasileiro, ordena funcionários do povo a cometer atrocidades contra o livre fluxo da informação, como a mão ilegal do censor de farda contra a lente da câmera, por exemplo. O Brasil se prepara para a Conferência Nacional de Comunicação. É hora de reiterar garantias, de construir um novo marco regulatório na área da comunicação e de fortalecer a pluralidade da informação como elemento essencial à democracia. (*) É jornalista.

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