Opinião
Palavra que se tornou gasta
O verbete discernimento tornou-se gasto pelo emprego abundante e abusivo. A moda é discernir-se sobre tudo, julgando que se encontrou, claramente, a vontade de Deus. Não é aqui o lugar de se escrever um tratado sobre o discernimento. Mas, de preferência, podemos apontar algumas balizas orientadoras para sua aprendizagem. O importante é aprender a discernir. ?Aprender a? significa criar atitudes que nos dispõem para determinada tarefa. Trata-se daquelas atitudes que nos preparam a ser pessoas de discernimento. Aprender a discernir é cultivar uma atitude fundamental de liberdade diante das coisas mais variadas da vida. Qualquer coisa que eu, porventura, escolher deve ser tal que me ajude a atingir o fim para o qual fui criado. Aprender a discernir é investir nossas energias críticas no conhecimento dos nossos condicionamentos, visando a libertar-nos, o máximo possível, desses condicionamentos. Quanto mais liberdade, mais pura é a atitude de discernimento. Parece até paradoxal: quanto mais idealismo tivermos, quanto maior for a graça que possuirmos, quanto mais poderosa for a motivação, mais condições teremos de discernir. Não se aprende discernimento cultivando uma frieza neutra, uma abulia incolor, um ceticismo cansado, mas adquirindo uma liberdade apaixonada por uma causa maior. Aprender a discernir é saber colocar-se numa atitude de busca que jamais termina, nem mesmo após a descoberta da coisa procurada. Aprender a discernir é saber, é conhecer, na insegurança contínua de quem está a dialogar com o mistério, que nunca terá certeza clara de sua transparência. Aprender a discernir é saber que este processo termina definitivamente. Sempre deve estar aberto ao aleatório, ao imprevisto, à novidade da história. As evidências do discernir são possíveis da parte de Deus. Mas, da nossa, deve permanecer a atitude humilde de quem pode ter-lhes acrescentado seus limites, seus desvios, suas deturpações. Isso nos conduz a que estejamos sempre em atitude de discernimento, e não em posse definitiva de resultados. Discernimento não deixa, também, de ser um processo de educar-se, de fazer uma imagem ideal de si e pôr-se a esculpi-la em si mesmo na dura labuta da vida, com o fim de unir-se o sonhado e o realizado, esperando que o realizado se aproxime, cada vez mais, do sonhado. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios e presidente da Academia Alagoana de Letras.