Opinião
O Brasil visto de cima
As pessoas estão dispersas na sala do portão de embarque. De repente, a funcionária da companhia, anuncia ao microfone que o embarque vai começar dentro de poucos instantes. Em seguida, anuncia que a fila da direita será utilizada para o acesso da classe executiva e que lá, será estendido um tapete vermelho. A classe econômica terá o acesso pela esquerda e a cor do corredor, sem tapete, será azul. Penso: mas tradicionalmente a esquerda não era vermelha? Bem, isso não tem mesmo importância porque, afinal, o vermelho deve representar a cor do tapete do rei. Enfileirada, e de nariz empinado, a maioria das pessoas espera, quase que ansiosamente, eu diria, pisar no pedacinho de tapete vermelho que separa os passageiros Vips (Very Important Persons), dos demais Vutps (Very Unbelievable Tolerant Persons). Tudo bem! Embarque feito, estou agora sentada na fila 26 e minha cadeira é A (na janela). Bilhete econômico, rabo do avião! Antes eu não entendia a diferença no preço para quem sentasse na frente ou atrás do avião. Mas, existe uma lógica: um estudo da Universidade de Greenwhich, na Inglaterra, verificou que quem senta na frente do avião tem mais chance de sobreviver (65%) em comparação aos que sentam no fundo (53%). Titanic no mar, Titanic no ar! O mais terrível do capitalismo é que a normalização da preservação da vida em função do dinheiro que se tem é questão oficial e legal. Outro dia, uma colega disse já existir uma proposta para se cobrar um preço adicional nas passagens aéreas de pessoas obesas. Na mesma ocasião perguntei se ela saberia informar se as pessoas desnutridas pagariam menos. Ela riu e disse: claro que não! Bem, já estamos voando há algumas horas e através da janela, vejo o solo de meu Brasil ? lá em baixo, os rios são artérias que irrigam a terra e também trazem vida às cidades. De um lado, as plantações se esparramam e formam desenhos sobre o solo, do outro, brasileiros se amontoam em pequenos barracos, seja nas fazendas, seja nas favelas que se formam nas periferias das cidades. Reforma agrária, fim das desigualdades sociais e reordenamento do modelo de desenvolvimento: tudo parece utópico aqui de cima, porque tudo se mostra caótico lá em baixo. Daqui de cima também não vemos as crianças de rua ou a violência das cidades, somente a transformação na conformação espacial da natureza, que dizimada, revela a necessidade de uma mudança radical dos paradigmas de nossa sociedade. (*) É professora da Universidade Federal de Alagoas.