Opinião
Apag�es, falta de �gua, engarrafamentos...
Diante de um fato que podia acontecer em qualquer lugar, membros do governo Lula enrolaram-se para explicar o apagão. O presidente, reencarnação de Deus e Pedro Álvares Cabral, disse que fez em sete anos 30% do que foi feito nos últimos 123 anos em linhas de transmissão de energia elétrica, como se isto esclarecesse o ocorrido. Os executivos do governo ficaram comparando o apagão de hoje com os de antes, para mostrar que o de Lula não foi pior que o de Fernando Henrique ou protegendo a ministra Dilma Rousseff, escalada para representar Lula na Presidência da República a partir de 2011. O apagão, por sua gravidade, impediu que questões mais sérias fossem levadas em conta. Na sequência dele veio a falta de água e uma lógica confusão urbana decorrente das limitações existentes hoje na distribuição de energia elétrica e de água. Isto sem se falar na paralisação dos sistemas de esgotamento sanitário. O apagão não mostrou só a fragilidade do sistema elétrico apontada pelos estudiosos, escancarou as deficiências estruturais das cidades brasileiras onde os limites entre a oferta e a demanda por energia elétrica, serviços de abastecimento de água e de esgotamento sanitário, vias públicas e espaços urbanos qualificados já não existe mais. Mostrou no atacado o que acontece no varejo, pois são comuns os apagões elétricos transitórios nas áreas urbanas e rurais, agravando a falta de água crônica. E por que é tão difícil para qualquer governo enfrentar tais dificuldades? Os conhecidos crescimento descontrolado das cidades e a falta de investimentos em infraestrutura são razões, entretanto não são a causa de todos os males urbanos, pois antes de tudo deveria haver planejamento, planos de governo e gestão sustentável. A estrutura político-partidária brasileira não tem interesse em falar em planejamento de longo prazo e entende o médio prazo como no máximo quatro anos. Com os arranjos eleitorais decorrentes da infinidade de partidos no país, a estrutura administrativa de quase todos os níveis de governo é uma salada de interesses, sendo comum o desencontro entre o que pensa o governante principal e o que fazem seus executivos imediatos que prestam contas de seu trabalho ao partido ou ao padrinho que os indicou. O apagão pode ser útil para mostrar que o Brasil precisa de planejamento de longo prazo e as cidades de planos estratégicos que definam com objetividade quais as demandas e como, quando, por quem e a que custo serão atendidas. Tudo isto com gestão profissional e competente para que o planejado possa se transformar em projetos integrados e exequíveis levando a resultados sustentáveis que transformem as cidades em lugares para viver ao invés de endereços de moradia. (*) É engenheiro civil e diretor Nordeste da Abes.