Editorial
Ajuste inevitável
O próximo governo terá de enfrentar um problema que a campanha eleitoral ainda trata com excessiva cautela: o desequilíbrio das contas públicas. O alerta dos economistas é claro, e o quadro torna-se mais preocupante diante da combinação de despesas obrigatórias crescentes, dívida elevada e juros ainda altos. O Boletim Focus de 24 de agosto projeta inflação de 5,02% para 2026 e crescimento de apenas 1,85% do PIB.
O reajuste do salário mínimo é um exemplo da dificuldade. O governo prevê R$ 1.741 para 2027, alta de 7,4% sobre o valor atual, o que amplia também despesas vinculadas ao piso, como aposentadorias e benefícios sociais.
O problema, portanto, não é simplesmente defender ou condenar aumentos reais do salário mínimo. É discutir, com transparência, como financiá-los num país que envelhece e no qual a Previdência ocupa parcela crescente do Orçamento. O mesmo vale para emendas parlamentares, novas despesas aprovadas pelo Congresso e benefícios tributários: não há responsabilidade fiscal quando se anuncia gasto sem indicar sua fonte de financiamento.
O ajuste fiscal será inevitável. A questão é saber se será planejado e discutido democraticamente ou se chegará, mais adiante, como uma imposição decorrente da deterioração das contas. O próximo presidente terá de escolher entre enfrentar agora os temas difíceis ou transferir para o futuro uma conta ainda mais pesada.
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