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Opinião

Um justo

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No Brasil de 1981, regime militar completava 17 anos e já andava meio dispnéico. Tanto é que as universidades federais ousaram ensaiar uma greve geral que resultaria na queda do ministro da Educação, o intelectual Eduardo Portela. Naquele ano, Nadja e eu nos integramos a um grupo da Adesg para uma excursão à Europa, à frente Lincoln Cavalcante e Aloysio Galvão. Maceió ainda mais provinciana que hoje, todos se conheciam, mesmo os que, como nós, não tinham ligações com o curso da ESG. No programa, além das clássicas Inglaterra, França, Alemanha etc., visita aos países mais abertos do Leste. O ambiente geral era de ressaca. À brutalidade da Segunda Grande Guerra seguiram-se os conflitos da Coreia e do Vietnam, as irrefutáveis denúncias de chacinas das ditaduras comunistas, as rebeliões na França e as sangrentas ações de grupos terroristas na Alemanha e na Itália. Naquela época já haviam tombado Moro, Ghandi, Luther King e Kennedy, dentre outros. O polonês João Paulo II faria sua primeira aparição pública depois do atentado na Sé. Na bela e quase insubmissa Praga, uma certa fissura era percebida, com pessoas nos abordando sem muitos pruridos querendo ?cambiar dólares?. Para uma transgressão noturna nos drinques, uma providencial ?molhada de mão? no garçom funcionava maravilhosamente. Parecia que a gente estava na Barra Nova. Em Berlim ocidental, avistamos o célebre presídio de Spandau, edifício que abrigava Rudolf Hess, joia nazista alemã, ?o preso mais caro do mundo?, uma vez que ocupava solitária e definitivamente onde cabiam centenas. Um dos pontos altos da visita era uma ida ao famigerado Muro de Berlim, clichê da intolerância comunista. Transformado em atração turística, havia lido algumas de suas dramáticas narrativas ? talvez inventadas pelo capitalismo, para queimar o filme do paraíso marxista. Juro que não tive nada a ver com a queda do muro, 8 anos depois. Dois símbolos dos anos 80 estão na mídia: os 20 anos da derrubada do muro de Berlim e a extradição do terrorista italiano Cesare Batistti. Dois artigos publicados na Folha de São Paulo dão o tom das argumentações pró e contra Batistti. Para Henry-Levi, Batistti não deve pagar por assassinatos perpetrados na juventude, quando acreditava em ações violentas. Grudado à santa Bíblia, hoje é um homem justo, de Deus. Já Rubens Ricupero pergunta se você daria asilo aos matadores de Kennedy, Ghandi e Luther King, todos vítimas de crimes políticos. (*) É médico e professor da Ufal.

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