Opinião
Mem�ria das Alagoas
A fotografia em preto e branco mostra um grupo de pessoas às margens do Rio de Barra de Santo Antônio fazendo pose para o fotógrafo. Elas acabavam de deixar a sopa, que era como se chamava aquele tipo de ônibus, pequeno e mal ajambrado e que se equilibrava bravamente em cima de uma tosca e pequena balsa. Pelo que estão usando, vestidos completos, paletós, gravatas e chapéus, não estariam indo à praia. A legenda explica, estavam indo para Recife e, a estrada seguia então por aquela via. Existem ainda inúmeros registros fotográficos com textos explicativos do Porto do Sururu, do Porto da Levada, onde se mostram os pescadores em sua faina diária de ir e voltar com os barcos abarrotados pelo molusco símbolo da gastronomia local. Lá está também o nunca esquecido Gogó da Ema, as igrejas, a Rua do Comércio em seu movimento e suas indumentárias de época; enfim, tudo o que existia de mais importante em nossa terra entre o fim do século 19 e meados do século 20, está neste primoroso álbum de cartões e fotos postais que chegou-me as mãos esta semana, ungido ainda por cordialíssima dedicatória do presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, dr. Jaime de Altavila. As fotografias antigas, mesmo as que retratam situações e momentos que não vivemos, mas que nos são conhecidos de outras ocasiões, nos avivam a memória e nos fazem recordar vivências e pessoas que nos foram queridas e desempenharam importante papel em nossas vidas. Não por outra razão, Amado Nervo afirmava: ?A recordação é uma rebelião contra o esquecimento, que é lei.?. Este álbum, tão qual outro lançado recentemente, sobre cartofilia pelo prof. Douglas Apratto, são obras notáveis que além de preservar a nossa memória, retratam a serenidade e a placidez de outrora em nossa cidade, hoje perdidas para um cotidiano de estresse, insegurança e violência desmedidas. Precisamos unir todas as forças, todos os esforços para que Maceió recupere um pouco do seu encanto, que muito tinha a ver com a paz e o sossego que emanavam não só de suas praias de águas tépidas e calmas, como de seu povo cordato. É Dante, em Inferno, quem afirma: Não existe maior dor / Que recordar, no mal, a hora feliz?. Este álbum do Instituto Histórico, tem ainda uma sucinta introdução do governador Teotonio Vilela, uma orelha do Dr. Álvaro Machado e uma robusta apresentação do dr. Fernando Gomes, que só valorizam esta obra, cuja importância pode ser resumida na frase de Guimarães Rosa: ?O que lembro, tenho?. (*) É professor da Uncisal.