Opinião
Os preconceitos do negro branco
A lógica está em não dá importância à melanina racial, mas aos sentimentos, do sentir, do ser e do estar negro na história da humanidade. Não se acredita na existência de negro ou branco no Brasil, até porque compreende-se que o povo brasileiro é miscigenado por natureza, ou seja, um povo de almas em uma alma só. Torna-se bastante cansativo discutir preconceito, discriminação e, acima de tudo, pintar cores, dar forma e tom às questões de pele. Crer-se que a discussão vai além dos trâmites documentais, dos movimentos diversos, do discurso caloroso e emotivo, dos víeis processuais e de alguns atos de vandalismos. Vai muito além, ultrapassa todos esses pressupostos históricos temporais. A criação de leis, de novas e difíceis nomenclaturas forenses, das mais variadas tentativas de inserção do ser negro nos currículos escolares, do mostrar-se ser pelo que lhe é peculiar por natureza, da força ao invés do diálogo em alguns casos e do estigma histórico usado e abusado pelos considerados brancos, não traz em seu arcabouço ideológico tanta importância assim. Interessante notar que na maioria das vezes o prejulgamento reencarnado e vigorado das forças dos ancestrais antepassados, prepondera sobremaneira no dito negro em relação ao outro ser dito branco. O foco discursivo não está no fato de ser branco ou negro à semelhança de um quadro pintado com suas cores julgadas reais, mas endeusar a miscigenação, aglutinar os seres como criação em pleno estado de evolução. O enfado mental ultrapassa as margens dos livros didáticos, extrapola as laudas estatutárias e regimentais das ideologias emplacadas, regadas por um bom sedativo de marketing antiescravagista. A residência da depressão neurológica parte especificamente do querer ser e não do ser em questão. Torna-se bastante preocupante querer ser, ora, querer é desejar algo e, mais utopicamente, sonhar com o irreal. Discute-se igualdade de raças, perdão! Falar em raça, negro ou preto, acarreta em processo, isto é o que diz a majestosa e bem teorizada lei. Discute-se o fenômeno racial como matéria obrigatória nos guetos escolares na terra da Vera Cruz; discute-se a igualdade de salários; discute-se a comédia romântica das cotas; discute-se também leis mais severas contra o preconceito, trocando em miúdos, uma gama de discussões carismáticas e acirradas transitam em todas as esferas da sociedade pentacampeã em particular. Ressalta-se nesse contexto uma inversão que se diria atípica dos preâmbulos da ?negritude?, pois vê no ?outro?, ou melhor, no ?branco?, uma ameaça à cultura, um poço de preconceitos e discriminação, adversários ferrenhos na luta em busca da centralidade histórica, inimigo histórico-reencarnado e senhor do passado e do presente. Compreende-se ser pessimismo e, por sua vez, identidade mal resolvida. O ápice constitui-se inversão dos fatos, pois acredita-se que a inerência da igualdade na criação supera as limitações ideológicas e imposições de pigmentação sobre outra. O pretexto melanino, pelo simples fato de refutar a cor branca, não exime o labor do preconceito, pelo contrário, fundem-se as declaradas ?diferenças de cor?. A miscigenação, inerência de igualdade e evolução da espécie humana, o conjunto de elementos químicos com suas vitalidades e a graça da transcendência do humano, fazem dissipar o olhar ofuscado e predador do dito negro com relação ao dito branco e vice-versa. É preocupante a inversão da moeda racista pelo simples fato de querer ser e não ser propriamente dito. (*) É pastor da Igreja Batista em Chã Preta/AL e, acima de tudo, miscigenado.