Opinião
De jejuns e panetones
Há cerca de 10 anos surgiu a esperada oportunidade de ocupar com assiduidade esse espaço na Gazeta de Alagoas. O compromisso moral, agora semanal, deixou uma preocupação: como conseguir assunto para desenvolver um artigo? O sempre competente Enio Lins acalmou minhas angústias: ?Relaxe, com esse governo aí, nunca vai faltar notícia para a gente comentar?. Nem sempre é assim. Há momentos em que relembro Nelson Rodrigues, que muitas vezes chegava na redação completamente ?desassuntado?, em cima da hora de rodar o jornal, implorando um tema aos colegas. Não é o caso dessa semana. Benjamin César, fundador do PT e ex-candidato do PSOL, publicou uma carta-bomba na Folha de São Paulo em que revela suposto diálogo do, na época, candidato Luiz Inácio no qual o futuro presidente teria feito revelações íntimas do período em que esteve confinado em forçado jejum sexual, quando insubordinado impulso o teria levado a jogar charme para um companheiro de cela, um certo ?menino do MEP?. Não há detalhes de como o affaire teria acabado. Estigmatizado por anos de prisão ainda na menoridade, detentor desse segredo guardado a sete chaves, ninguém sabe exatamente o porquê de somente agora o jornalista César o ter tornado público. Dentre os inúmeros comentários aplaudindo ou condenando o relato, o mais curioso foi o de um cidadão que acorreu em defesa da masculinidade presidencial, acusando o ?menino do MEP? de estar a serviço do SNI e da decadente burguesia justamente para enfeitiçar e corromper o sindicalista, atiçando lúgubres iniciativas. Aliás, corrupção de costumes é o que não falta na recente vida pública brasileira. Afora os escândalos sexuais que de vez em quando abalam os alicerces republicanos, certamente os mais freqüentes são os expedientes em que rola dinheiro grosso por debaixo dos panos (meias, cuecas, sutiãs, calcinhas e cavidades naturais). Embora os esquemas de corrupção sejam uma espécie de selo de qualidade do atual governo, a bem da verdade, ele não é o pai da matéria. Sem mergulhar demais no passado, não custa lembrar os escândalos financeiros na era FHC envolvendo manobras para reeleição, privilégios nas privatizações, etc. A bola da vez é o governador Arruda do DEM do Distrito Federal. Com cara de sacristão de basílica, literalmente apanhado com a mão na massa, não está fácil convencer os eleitores e a justiça da sua comovente intenção de comprar panetones. Como é difícil ser bom nesse país! (*) É médico e professor da Ufal.