Opinião
A Mariologia e o tempo
A Festa da Imaculada Conceição vem mostrar a tarefa da Virgem Maria na economia da salvação em geral e na vida interior de cada cristão, verdades reconhecidas pelo catolicismo contemporâneo. Alguns inquietam-se, temendo que isso aumente a distância que nos separa de nossos irmãos protestantes. Entretanto, não podemos criar obstáculo no caminho da Mariologia. Na verdade, Maria é bíblica, desempenhando aquele papel capital em relação à primeira Parusia. É nela que culmina a espera do povo judeu, na medida em que é nela que vêm convergir e confluir todas as preparações, todas as aspirações e inspirações, todas as graças e prefigurações que abundaram no Antigo Testamento, podendo afirmar-se ser ela aquela que, na véspera da vinda de Jesus Cristo, resume, e encarna essa longa experiência de mais de vinte séculos que a precederam. Nela todo o Antigo Testamento vem, de certa maneira, reunir-se em uma aspiração mais ardente, em uma preparação espiritual mais total para a vinda do Senhor. Nesse sentido, ela é a Senhora do Advento, da espera. Trata-se de uma longa obra progressiva de educação que vai além do tempo, numa como presença de eternidade: Ela é a flor maravilhosa que brotou de Israel, no termo dessa ação misteriosa do Espírito Santo na alma de Raquel, na alma de Rebeca, na alma de Sara e de Rute, nas almas de todas as mulheres do Antigo Testamento. Com Maria, pode-se asserir estar nela todo o senso de Deus. Encontramos na Santíssima Virgem, no termo dessa lenta educação de Israel, um senso admirável de Deus e de sua unidade. Diante das infidelidades de Israel, Maria é a ?Virgo Fidelis?, é o Epitalâmio das núpcias do Verbo com o seu povo. O mistério da educação de Israel é, em segundo lugar, o mistério da graça, isto é, da comunicação da vida divina à humanidade, tornando-se ela a ?Mãe da Divina Graça?, medianeira universal, mãe do gênero humano. A teologia distingue, ao lado da Graça Santificante, o que ela chama de graça preveniente, aplicada a Maria, como a Virgem que nos prepara para a Graça Santificante. Numa palavra, Maria é a graça que prepara a própria graça que nos inicia na filiação divina. Sem a graça que prepara, jamais receberíamos a graça que santifica. Maria é, teologicamente, falando: a graça preveniente ? preparatória ? para a graça santificante. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios e presidente da Academia Alagoana de Letras.