Opinião
Cam�es e Copenhague
Estava em São Paulo a semana passada e ao sair do evento médico, deparamo-nos com uma cidade caótica, vítima de um violento temporal. Não existiam táxis para nos levar ao hotel, mas existiam 38 pontos de alagamento, 186 quilômetros de engarrafamento do trânsito, queda de barreiras e vários mortos na periferia da cidade. Novas trovoadas violentas voltaram a castigar São Paulo esta semana e já somam mais de 25 vítimas fatais, junto com outras alterações radicais do clima em todo o País, como as enchentes de Manaus, a seca do Pantanal, as enchentes no Rio Grande do Sul, os tornados em Santa Catarina, os degelos dos polos e os tsunamis na Ásia coincidem com a realização da Conferência do Clima em Copenhague, onde se debate a questão do aquecimento global. Para não acharmos que não temos nada com isto, em Maceió não podemos fechar os olhos para as praias que simplesmente desapareceram, como a da Ponta Verde, logo após o Alagoinhas, o assoreamento da Pajuçara e a subida dos níveis do mar, a cada ano invadindo mais e mais o asfalto, a ponto de a qualquer momento, temem os mais pessimistas, o Conversa de Botequim do Plínio Lins poder ser inundado por uma onda gigantesca. Copenhague mostrará um dilema fundamental: será o homem capaz de compatibilizar o progresso e o desenvolvimento econômico com a preservação do meio ambiente e da qualidade da vida no planeta? Durante os piores momentos da ainda presente crise econômica, a redução da atividade produtiva fez com que a emissão dos gases que formam o efeito estufa fosse reduzida significativamente, atenuando esta situação crítica. O progresso material e econômico é aspiração generalizada, mas a que preço? Baudelaire, um cético, citava: ?Que há de mais absurdo que o progresso, já que o homem, como está provado pelos fatos de todo o dia, é sempre igual e semelhante ao homem, isto é, sempre em estado selvagem?. Camões era um otimista em relação ao tema: ?Depois da procelosa tempestade/nocturna sombra e sibilante vento,/Trará amanhã serena claridade,/Esperança de porto e salvamento.?. Mas o também bardo Mauro Mota, outro cético, parece mais atual e realista: ?Depois da tempestade vêm a bonança e os corpos das vítimas?. Copenhague poderá sinalizar se os chefes de Estado ? entre eles, Obama, que é um avanço e uma esperança ? conseguirão controlar os gananciosos, que só veem o lucro imediato e pouco estão ligando para o que ocorre ao redor. O tempo mostrará se estamos mais para Mauro Mota ou para Camões. (*) É médico e professor da Uncisal.