Opinião
A alegria de colher
Acabo de receber uma homenagem da 1ª Turma de Praças Femininas da Polícia Militar de Alagoas. A emoção do momento me faz voltar no tempo e me vejo inquieta a ler o Edital de Chamamento para o ingresso no novo Quadro do efetivo daquela Corporação. Ali se exigiam injustas condições que fechavam em apertado ou impossível círculo a oportunidade de mais um espaço para o trabalho feminino em nossa terra. Tinha de ter altura mínima de 1,70 m a candidata, ser solteira, sem filhos e assumir compromisso de só casar após dois anos de serviço. Ora, há vinte anos, mal se poderia encontrar homens com tal estatura aqui nesse Nordeste mirrado, desassistido, esfomeado. Imaginem mulheres altas, quando a média não passava de um metro e sessenta e quatro, ainda mais contemplando apenas as solteiras e sem filhos. Retorno à solenidade da entrega de tão honrosa condecoração e ouço a voz do comandante Dalmo Sena destacando a importância da presença atuante e forte das mulheres na Polícia Militar de Alagoas. Colho, então, a indizível satisfação da vitória, dessa vitória que é de todo o movimento feminista local, desde o estudo da jurista Silvia Lavenáre, que culminou com o projeto de lei criador da Polícia Militar Feminina, quebrando os tabus do machismo de então, até a aceitação de nossas reivindicações contra as condições do edital acima referido, com as instantes visitas ao então comandante-geral coronel Nilton Rocha, que ouvia os reclamos meus, pela Pró-Mulher, da Aydete Vianna, pelas mulheres advogadas, de Marilma Torres Gouveia e Eunice Nonô, pelas mulheres de carreira jurídica, entre outras companheiras de luta de igual brilho e coragem. Temos muito a comemorar, sim. Basta sentir, no dia-a-dia de nossa sociedade, a bonita e forte presença das policiais que integram competentemente o Bope, a Radiopatrulha, os setores administrativos, os batalhões e demais compartimentos corporativos, lado a lado do homem, com igual desempenho. Na alegria de colher, lembrando todas as companheiras de luta e de conquistas, esse reconhecimento da 1ª Turma de Praças Femininas, cujo carinho me passam pelo olhar e pelo abraço, sinto que continuarei a plantar a semente para a conquista do efetivo respeito aos direitos fundamentais do indivíduo, seja homem ou mulher, mola mestra do mecanismo democrático. (*) É médica e presidente do Fórum de entidades autônomas de mulheres de Alagoas.