Opinião
Beco sem sa�da
Não sei se você acompanhou, amicíssimo leitor, as comemorações do vigésimo aniversário da queda do Muro de Berlim. O fato político ensejou reportagens, matérias jornalísticas, ensaios, debates e discussões pelo mundo afora, lembrando aquele evento histórico. As revistas e periódicos, em sua maioria, abordaram o tema, de forma simplista e superficial, ressaltando que o fato significou a vitória do capitalismo sobre o comunismo. Lamentável, pois perdemos uma excelente oportunidade de discutirmos, atento leitor, questões muito mais inquietantes e profundas. Dar-lhe-ei um exemplo. As democracias capitalistas dos países mais poderosos do mundo estão em condições de resolver os problemas que o comunismo não conseguiu resolver? Esta é a verdadeira questão que paira majestosa como um gigantesco obelisco diante dos nossos olhos! E, antes que o amigo me tome por um saudosista daqueles regimes, confesso-lhe que, mesmo na época de estudante universitário, nos anos de chumbo da ditadura militar, nunca me encantei ou me iludi com os regimes políticos que foram implantados no Leste Europeu. Talvez porque, à época, os crimes de Stalin já tinham sido fartamente denunciados, causando um desencanto à juventude da época. Ora, se estávamos lutando contra uma ditadura, aqui no Brasil, da qual tínhamos nojo e horror, não fazia sentido termos ilusões pelos sistemas implantados naqueles países. Feita a ressalva acima, continuemos: o comunismo faliu, não discuto. Não costumo brigar com a realidade e com os fatos. No entanto, até onde a minha vista alcança, os problemas restam. Exatamente aqueles mesmos problemas que a utopia comunista havia se proposto solucionar e que encantou tantos intelectuais e jovens idealistas. Estão aí exigindo solução: miséria, destruição ambiental, desencanto da juventude com a política, desemprego, desigualdades assombrosas, preconceitos contra imigrantes, tráfico de drogas e de armas, fome, violência, guerras, etc. Esta é a razão pela qual só os insensatos rejubilam-se com a ?vitória? do capitalismo. O amigo leitor, sensível que é, concordará que o fim do comunismo histórico não colocou fim à sede de justiça e à necessidade de sociedades mais justas. Portanto, as democracias capitalistas continuam diante do grande dilema: com que meios e com que novos ideais dispõem-se a enfrentar os mesmos problemas que fizeram nascer o desafio comunista? Agora que os ?bárbaros? comunistas não existem mais, o que será de nós sem os ?bárbaros?? . (*) É engenheiro mecânico da Casal.