Opinião
A Noronha com carinho
Consagrei seis anos de minha vida, ou melhor, de minha velhice, ao pastoreio e evangelização do arquipélago de Fernando de Noronha, paradisíaco conjunto de ilhas e ilhotas do Atlântico Equatorial, a 545 km do Recife e 360 km de Natal. De origem vulcânica, emergiu do fundo do mar, há milhões de anos, com suas praias, baías, enseadas e rochedos e é, sem dúvida, dos mais belos lugares do planeta. Podemos afirmá-lo sem medo de errar. A baía dos golfinhos, por exemplo, é o maior aquário natural do mundo em animais dessa espécie. São 21 ilhas e ilhotas, com uma área total de 26 km². Na ilha principal, a única atualmente habitada, o homem ocupa apenas 30% para moradia e serviços. O resto constitui o Parque Nacional Marinho, hoje administrado pelo Instituto Chico Mendes da Biodiversidade, ICMBio. Fernando de Noronha (ou apenas Noronha para os íntimos) foi descoberta em 1503 por Américo Vespúcio (Florença 1454-Sevilha 1512) quando realizava a famosa viagem até a Patagônia para demonstrar que as terras descobertas por Portugal e Espanha não pertenciam à Ásia e acabou tendo o novo continente (América) batizado com o seu nome. Ele chamou o arquipélago descoberto com o nome de Fernão de Loronha, fidalgo português, que financiara a expedição e recebeu as ilhas como capitania hereditária, que nunca sequer visitou. Abandonada pelo seu donatário, como fizeram outros donatários de capitanias no Brasil, Noronha foi ocupada por franceses, alemães, holandeses (durante a ocupação batava no Nordeste), e outros em menor escala. Por estar a ilha na rota das navegações para o Novo Mundo, serviam-se dela como entreposto de abrigo e reabastecimento de embarcações. Em 1737, foram finalmente expulsos os estrangeiros e se deu a ocupação definitiva do arquipélago pela Coroa portuguesa, com a construção de duas vilas e o maior sistema fortificado da colônia, com dez fortes. Foi presídio comum de 1737 a 1938, presídio político de l938 a 1942, território federal independente de 1942 a 1988 e, finalmente, com a promulgação da Constituição em 1988, foi reintegrada a Pernambuco até hoje, como Distrito Estadual. Nessa agitada história de Noronha, a presença da Igreja tem sido débil. Durante o Império, era proibida a entrada de não-católicos na ilha. E durante o regime militar, foi vetada a ação de padres da Arquidiocese de Olinda e Recife. Só capelães militares davam assistência esporádica e inconstante. Nenhum estável e permanente. Veio então a fúria de um proselitismo agressivo, que arrasta católicos pouco firmes para suas seitas e igrejas. Nesses últimos anos, com a proteção da Senhora dos Remédios, levamos a cabo pequeno trabalho de formação catequética com resultados compensadores: introdução à Bíblia, mariologia bíblica e ?S.Paulo, o homem dos dois mundos?. Por último, tivemos a implantação das Oficinas de Oração e Vida, com muito esforço e notável êxito. Não vingou a pastoral familiar nem a oração carismática. Funciona bem o Terço dos homens e a Adoração semanal ao SS. Sacramento. Ultimamente, vem se tentando a catequese da perseverança, com vistas à administração consciente do Sacramento da Confirmação. (*) É arcebispo emérito de Maceió.