Opinião
As lembran�as de Natal
No frenesi que toma conta de todos nesta época, o que a maioria quer? Participar do clima de euforia e de festejos, trocar presentes, comer e beber ?pantagruelicamente?? Alguns mais religiosos por convicção e outros por costume vão a cerimônias religiosas e, o que mais? Pessoalmente evito participar do fervor consumista que assola a praça, mas não há como evitar que as boas lembranças dos antigos natais em família e dos amigos fraternos me envolvam e me tragam à mente as melhores recordações, embora o nosso Natal e a entrada de ano novo fossem os mais frugais possíveis. A celebração natalina era para minha mãe a época mais aguardada e venerada de todo o ano e o que podia existir de mais gratificante. Não porque esperasse por presentes ? nossa família, modesta e contida ?, não cultivava isso como fator primordial, mas sim porque, ela, uma crente possuidora de uma fé inabalável, vivia esta época com o entusiasmo de quem tivesse participado pessoalmente do nascimento do próprio menino Jesus. Lia e distribuía trechos da Bíblia, cuidadosamente escolhidos durante todo o ano, que poderiam ser úteis para os familiares. Um versículo para o marido, um salmo para um filho, outro para a nora, outro ainda para um neto e pedia que os lêssemos com atenção. Depois ainda cantava hinos de louvação ao Senhor, o que virou um minicoral com a chegada de Ivanelza, que além de boa voz a acompanhava ao violão. Ao final, fazia uma oração serena, onde pedia pelos que ali estavam, pelos ausentes e por todos, numa sincera prece pelos mais sofridos e abandonados. Depois, comíamos os seus pastéis de carne, cobertos por delicada camada de açúcar, seu toque peculiar que o diferenciava de todos os que conheço. Terminava a noite vendo na TV gravações de balés clássicos, principalmente o Quebra Nozes, o seu preferido. Ainda tinham os telefonemas dos tios e outros parentes distantes, para quem sempre tinha uma palavra de esperança e conforto. Penso que as celebrações natalinas devem ser assim e como as das voluntárias da Rede Feminina de Combate ao Câncer, comandadas pela dra. Fátima Canuto e voltadas para os pacientes cancerosos mais humildes e seus familiares. Esta semana, uma paciente grave, participando delas, feliz me disse: ? Doutor, Deus está aqui hoje? ? como então ignorar o valor da fé religiosa? José Aprígio Vilela que construiu a Casa de Apoio Lenita Vilela para este pessoal desprotegido e que aniversariava nesta época, deixou este grande legado e sempre estará entre os que mais entenderam o verdadeiro valor do Natal. (*) É médico e professor da Uncisal.