loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quinta-feira, 06/08/2026 | Ano | Nº 6283
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

Saudades de dr. Ib

Ouvir
Compartilhar

Não vou lembrar o construtor de hospitais, o homem de visão extraordinária, o cirurgião ambidestro que encantava aos que lhe assistiam, colegas ou discípulos, em cirurgias das mais simples às mais complexas, o humanista acima de tudo. Vou lembrar o menino da Levada, como dizia, nascido na Rua Boa Vista, mas, criado na Praça Deodoro, em casa dos avós maternos, vizinha ao Tribunal de Justiça, por força da orfandade paterna prematura. Apenas, um ano. Dos relatos seus de travessuras pegando guaiamum à beira da lagoa, quando acompanhava o avô nas horas de baixa-mar. E, entre gargalhadas, dizia ser craque em chamar os bichinhos com um galho até aparecerem à boca do buraco e capturá-los, para uma saborosa caranguejada. Veio daí seu conhecimento da anatomia daqueles crustáceos. Assim como se encantavam com sua ambidestria à mesa cirúrgica, assistíamos a uma verdadeira aula de como ?traçar? aqueles decápodes à mesa gastronômica. Parávamos para ver e ouvir um belo ?obá?, tão alto quanto sua estatura. Certa vez em casa de Helio Ramalho e Lizete ? mãos de fada na cozinha ? ao iniciar seu ritual, começando pelas patas, as menores, até chegar ao ?buzugo?, o anfitrião amigo deu-lhe uma toalha de mesa ? guardanapo era pequeno ? para amarrar ao pescoço, e, como estava sentado vizinho, armou um guarda-chuva voltado para o comensal, tentando proteger-se dos detritos advindos do quebra-quebra das patas. Vou lembrar de suas idas ao Bar das Ostras, onde seus compadres Pedro e Oscarlina desmanchavam-se em gentilezas ao médico da família. Ali, também, a gastronomia tupiniquim esperava-o quando avisava estar levando amigos de outras plagas. Acompanhei-o várias vezes para uma dessas sururuzadas de capote, quando sua comadre servia em enorme xícara de ?consommé? um belíssimo caldo do molusco. ?Levanta até defunto?, afirmava com seu vozeirão. Tinha como princípio, ao degustar pratos em que as mãos eram constantemente usadas, só parar de comer quando seus dedos ficavam enrugados pelo contato com o líquido. ?Meu filho, seus dedos nem enrugaram ainda e você já quer parar!?, ensinava aos netos. À mesa, com ele, era diferente. Gostava de um bom vinho, conhecedor que era. Na sobremesa, lembrava os sorvetes que fazia quando garoto, mexendo constantemente o refresco em água bem gelada, até ficar cremoso. ?Tinha outro gosto, pois ficávamos ansiosos até estar pronto?. Na verdade era um bom gourmet, mas gostava tanto das finas iguarias como dos acepipes mais simples da culinária regional. É desse dr. Ib que também tenho saudades. (*) É juiz de Direito.

Relacionadas