Opinião
O dezembro que Saramago n�o viu
A manhã ensolarada acordou a cidade para mais um dia do novo mês de dezembro. Que dia é hoje? Alguém me perguntou. Nove de dezembro, respondi. Ah! Dia mundial contra a corrupção! Hum! Isso explica as muitas entidades realizando atos repudiando a dita cuja. Na primeira fila, enfileirados, os políticos locais escondiam nos bolsos das calças, as mãos manchadas da tinta das propinas. Naquele dia não deu para pegar o ?apurado?... pegaria mal, sabe como é, tem que dar uma disfarçada... Deixa para amanhã, pensou o político. Mas, no outro dia, o secretário avisou que já estava agendado outro ato público contra a corrupção. E no outro também... E no outro... Êpa! Deixar de apanhar a bufunfa por um dia , tudo bem! Mas deixar de apanhar por dois dias? Ou mesmo três? Deve haver algo estranho. Foi aí que alguém notou que a folhinha tinha parado no mês de dezembro, mais precisamente no dia nove. Nem um dia a mais, nem um dia a menos. Todos os dias eram o dia nove de dezembro. Ponto final, ou melhor dizendo ?parágrafo?, já que tudo sempre estava recomeçando. Enquanto fosse nove de dezembro, não haveria o recolhimento da bufunfa. Isso não vai dar certo, pensou o político. O Timbira vai que ter que circular a grana, para não dar na vista! E foi assim que quatro dias depois, no dia nove de dezembro, o dinheiro da merenda escolar foi desviado para a compra da merenda. Um mês depois, no dia nove de dezembro, foi declarada a falência da fábrica de malas pretas da cidade. Vamos investir na fabricação de lâmpadas, pensou o político. A iluminação de Natal foi acesa todas as noites nas principais vias turísticas. E os turistas continuavam chegando aos bandos. As tais vias principais já não davam conta de escoar os enormes ônibus de viagem. Aos poucos, a direção do governo local decidiu iluminar outras avenidas, para que o trânsito folgasse mais um pouco. Assim, da noite para o dia, as periferias começaram a brilhar como uma enorme árvore de natal. Mas, as multicoloridas luzinhas natalinas iluminaram também os barracões das favelas, as crianças desnudas e desnutridas e os esgotos a céu aberto. Os turistas, das janelas dos ônibus, tiravam fotografias. Cadê os políticos deste lugar? Tudo era tão diferente! Tão incrível! Tão medonho! Um presépio urbano! Uma presepada política! De repente, um sinal luminoso mostrou a data: 24 de dezembro. É Natal. A força da corrupção mudou a folhinha; vamos esquecer tudo! Feliz natal! Próspero ano-novo! E os políticos continuaram escondendo as mãos nos bolsos das calças. Acordei. Maria Gadú continuava cantando Ne me quitte pas. (*) É professora da Ufal.