Opinião
Uma f� capenga
Chegou dezembro e com ele o Natal. Para algumas igrejas cristãs a data revive o nascimento de Cristo, o próprio Deus feito homem, nascido do ventre de uma mulher de bem ? virgem, embora casada ? feita grávida por obra e graça do Espírito Santo. Especialistas e outros curiosos insistem na tecla de que tudo estava escrito. As circunstâncias ajudariam a concretizar as profecias: Maria no nono mês de gestação teria sido impelida a recensear-se em Belém. A cidade fervilhava e a falta de alojamentos teria levado a grávida e o esposo de aparência a um curral cheirando a urina e a esterco de animais. Lugarzinho miserável para nascer uma criança, onde o risco de tétano umbilical é imenso. O menino sobreviveria. Talvez aí, antes da água para vinho, tenha sido o primeiro milagre. Exegetas esforçam-se para entender aquela demonstração de desapego de Deus por condições higiênicas menos insalubres. Lição de humildade? Certamente seria isso para um Ser poderoso que havia criado o céu e a terra, determinado as leis da natureza, dado vida às plantas e aos animais e inclusive ao próprio homem. Leia-se a ironia do Senhor. Na hora de pôr o homem no mundo escolheu um sítio maravilhoso conhecido como Éden. Para Ele, preferiu os odores da decomposição ovina e bovina. Aliás, o primeiro casal ? ele feito do barro, ela da costela dele ?, depois de curta lua-de-mel com o Criador, mostrou-se ingrato deixando-se levar por lascivos sussurros da diabólica serpente. Este miserável réptil não era ninguém mais, como depois ficaria comprovado, que o próprio Lúcifer, um ex-anjo manhoso que queria ser Deus a todo custo. Até tornar-se homem há dois mil anos, Jeová mostrar-se-ia ciclotímico, sujeito a iras e bonomias. Doravante, os partos seriam com dor e a garantia da sobrevivência o suor do rosto. Impeliu Abraão a matar Isaac, fez o dilúvio, detonaria Sodoma e Gomorra e, à guisa de castigo, deixaria os judeus andando em círculo durante 40 anos. Não tenho cacife suficiente para contradizer o que dizem as Sagradas Escrituras. O evolucionismo, teoria que tenta demonstrar que o processo que culminou com a presença de vida no planeta não tenha seguido o script religioso, caminha numa outra direção. Talvez não tenha havido paraíso, serpente, barro, maçã, costela. Muito menos pecado original. Uma pena. Gostaria de nesse dia acreditar em tudo isso e prostrar-me mais uma vez diante do Senhor para agradecer pelos meus netinhos, que fazem a razão da minha vida. (*) É médico e professor da Ufal.