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Pra n�o dizer que s� falei de espinhos

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Certa tarde, juntamente com alguns amigos da velha-guarda, resolvemos entrar numa faixa de nostalgia e saudades. Colocamos para fora aquelas velhas canções dos grandes compositores, os que realmente faziam poesia nas suas músicas, não isso que se ouve hoje, envolvendo uma juventude desavisada e mal-educada artística e culturalmente. No meu tempo de menina, aprendíamos ainda no colégio a solfejar e a ouvir boas composições; hoje, porém, nada disso acontece e o resultado é essa massificação de coisas que nem merecem ser consideradas como composições musicais, nem poesia bonita, boa, digna de ser ouvida e cantada. A televisão mostra tudo o que não presta e ainda contribui para enriquecer intérpretes que nem têm nem voz. Pouca gente se salva. Qualquer um pode abrir a boca e botar pra fora suas pornofonias e vai ver todos estão morando nos endereços mais caros de São Paulo e Rio de Janeiro. Pelo menos naquela tarde, saímos desse lamaçal de besteirol e passamos a nos deleitar com as vozes de Sílvio Caldas, Orlando Silva, Carlos Galhardo, Noel Rosa, Aracy de Almeida. Gente da década de 30 como Vicente Celestino com as clássicas composições: O Ébrio, A Patativa e Ouvindo-te. Com as valsas de belíssimas letras de Orestes Barbosa, como Arranha-céu, Serenata, Chão de Estrelas. Ary Barroso, com a linda e conhecida internacionalmente, Aquarela do Brasil e Tabuleiro da Baiana; Dorival Caymmi, com Maracangalha, Você já foi à Bahia? e Samba da Minha Terra; João de Barro relembrando carnavais passados, com Touradas em Madrid, Yes, Nós Temos Bananas, Copacabana e a suave e romântica Laura; J. Cascata e Leonel Azevedo, fazendo a gente sonhar com Lábios que Beijei, Meu Romance e o engraçado e alegre Não Pago o Bonde; Lamartine Babo nos levando às imagens de nossos namoradinhos na época, com a bela valsa Eu Sonhei que Estavas tão Linda, Serra da Boa Esperança e o animado Teu Cabelo Não Nega; Herivelto Martins nos embalando com Segredos, Cabelos Brancos e Caminhemos e a clássica Ave Maria no Morro; e, por fim, Lupicínio Rodrigues com Vingança, Se Acaso Você Chegasse, Felicidade e Brasa. Entre suspiros, lágrimas furtivas, recordações embaladas pelas vozes dos intérpretes daquele tempo que cantavam de verdade; entre um gole de vinho e o bater acelerado dos nossos corações, passamos uma bela tarde, um final de dia ou, como dizem os mais sofisticados, um happy-hour dos mais lindos. Esses momentos trouxeram para mim, pelo menos, uma volta virtual à minha juventude. E uma intensa e bela impressão de vida. (*) É escritora.

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