Opinião
O tempo novo no seu ainda-n�o
O ano de 2009 acaba de parturir 2010. Com efeito, o ser humano é, na verdade, um espírito-no-mundo. De certo, o mundo não esgota as capacidades que tem de conhecer, querer, sentir e amar. Pode pensar tudo. Sua possibilidade, porém, de conhecer continua, ainda, virgem, porque seu espírito se move no horizonte infinito do ser. O querer humano quer muito mais do que pôde alcançar no ?íon? de tempo que passou. Nenhum ato concreto no tempo esgota, de todo, o dinamismo do querer. O homem é projeção e tendência para um sempre mais, para um ?ainda-não? que está fora de sua previsão. A meta alcançada, no tempo que passou, ficou, continuamente, como um meio para um objetivo mais alto. Estamos, ainda, nascendo. Tudo é sempre promessa. E no desejo de mais querer, surge 2010. E entre ousadia e esperança, ansiedade e coragem sonha o ser humano com as utopias. Com efeito, desempenha a utopia uma função insubstituível dentro da história do ser humano. Pela utopia projetam-se, no porvir, todos os dinamismos e anseios humanos livres de todos os elementos ambíguos e limitatórios. A utopia não é fantasia, nem carnavalização, senão visão altaneira de esperança. A utopia revela a permanente ânsia de renovação, o desejo de novos céus e novos mares. Ao longo da história, conhecemos poucas utopias: a República de Platão, a Cidade de Deus de Santo Agostinho, a Cidade do Sol de Campanela, a Utopia de Santo Tomás Morus, a Cidade da Eterna Paz de Kant. O Estado Absoluto de Hegel, o Paraíso do Proletariado de Marx, o Mundo amorizado e pluralizado de Charden, o Admirável mundo novo de Huxley, a Vulcânia de Júlio Verne, o Reino de Deus apocalíptico. O ano de 2010 deverá ser o ano da Topia, da Revelação do Espírito Trinitário. Poderá, neste tempo, tornar-se patente o que experimentamos latente dentro de nós. Trata-se daquela Roda Viva, de que nos fala Chico Buarque que não para de rodar, mesmo quando queremos parar: ?Roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda pião, o tempo mudou num instante, nas dobras do meu coração. Mas, não vai desfazer a saudade, o bem que se praticou, os amores que se renovaram, que vivem guardados nas dobras de um coração que se movimenta em sístole e diástole, alimentando a vida. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios e presidente da Academia Alagoana de Letras.