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Opinião

O malsinado santo

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Nós, brasileiros, dulcíssimo leitor, temos certa tendência, embora não percebamos, de colocar sobre os ombros dos outros nossas falhas. Se chegamos tarde a uma reunião ? essa maravilhosa criação humana, idealizada para ser utilizada nas horas em que não sabemos o que fazer ?, a culpa é do trânsito; se perdemos o horário do voo do avião, logo apontamos o dedo incriminador para o maldito do horário de verão; e por aí vamos... E o fenômeno é de uma progressão alarmante. Ao que parece, quanto mais alto o cargo mais essa tendência se acentua. Veja a Dilma, por exemplo: em recente declaração, afirmou que o Brasil nunca mais se confrontaria com apagões. Foi fragorosamente desmentida pelas circunstâncias. Dias após a declaração, vivenciamos o maior apagão já visto no Brasil, colocando na escuridão, mais de 60 milhões de brasileiros. Brasileiros e paraguaios, porque o apagão expandiu-se de tal forma que nem os irmãos fronteiriços escaparam. E, adivinhe energético leitor, quem Dilma ? imediatamente acompanhada pelo séquito de bajuladores que sempre viceja aos pés dos poderosos ? acusou? Isso mesmo, São Pedro! São Pedro, que, maldosamente, lançou raios malignos contra as nossas linhas de transmissão e subestações. Em nenhum momento o governo reconheceu a existência de equipamentos de proteção obsoletos. Basta impor ao desalmado santo a culpa e estamos entendidos. Se bem que, nesses últimos dias, o santo ganhou um consorte para dividir o banco dos réus: o aquecimento global. Os culpados são: ou o santo ou o aquecimento. Ou os dois juntos. Na quinzena passada, foi a vez de os paulistanos, mineiros e gaúchos culparem o hediondo santo. Nos jornais televisivos vimos cenas de bueiros regurgitando as misérias e o lixo de cada dia que teimamos em lançar nas calçadas, pessoas dando asas aos pés para atravessarem ruas repentinamente transformadas em rios, veículos abandonados pelos motoristas na fuga do afogamento, barreiras desabando sobre pessoas e casas, construídas nas áreas de várzeas, sendo invadidas pelas águas, devido à pachorra de autoridades que nada fizeram para impedir as invasões de áreas impróprias às moradias. Ninguém, amigo leitor, ninguém assumiu os erros e as suas responsabilidades. O culpado, como sempre, foi o desnaturado São Pedro, que abriu as porteiras do céu e permitiu que um dilúvio desabasse sobre nossas cabeças. O santo, se levado a um tribunal inquisitório para expiar por seus atos, poderia alegar que deixou vir as enxurradas para, ao menos, enxaguar a desfaçatez humana. (*) É superintendente da Casal.

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