Opinião
Paris vale uma garoa
Unha e carne do mais camaleônico dos partidos políticos brasileiros, se eleita, dona Dilma Rousseff não será a primeira governanta a abandonar princípios que dizia acreditar para correr atrás do poder, aliando-se a posturas e personagens que, no fundo, no fundo, identificam-se, equivalem-se e mutuamente se merecem. Levado pelas circunstâncias, lembro agora das questões partidárias e religiosas da França no século 16, quando famílias nobres e grupos políticos esgrimiam para permanecer no controle do país, em outras palavras: manter-se rei ou ser derrubado por adversários sequiosos. De fato, naquela época o mundo dito civilizado, particularmente a Europa, vivia momento especial. O Renascimento iria oferecer condições para discordâncias e rupturas definitivas no catolicismo hegemônico, principalmente a partir do discurso do monge reformista alemão Martin Lutero, tido como o pai do protestantismo. Nas Gálias, onde o cristianismo católico levado pelos romanos foi florescente desde os primeiros séculos, o binômio Estado-clero se revelaria poderosa máquina de preservação de privilégios, não obstante corrosivo no aspecto moral, sobretudo nas hostes da igreja. Não por acaso o calvinismo prosperava. Num belo dia, por ironia do destino, poucos anos depois da fatídica Noite de São Bartolomeu, o cetro real da França cairia no colo de um monarca protestante, o célebre Henrique 4º. Conhecido como um dos maiores garanhões da história da França ? contrastando com o filho e herdeiro do trono Luiz 13, com pendores diversos ? teria sido aconselhado a converter-se ao catolicismo. Com efeito, em nome da governabilidade e, sobretudo, temendo um golpe de estado, sua frase viraria o símbolo do fisiologismo: ?Paris bem vale uma missa?. Inspirados certamente em Henrique 4º, Lula (o ?Homem do Ano? para o jornal francês Le Monde), Madame Rousseff e o PT talvez estejam dizendo entre eles próprios que ?Brasília bem vale um Temer?. Mas deixemos essa turma em paz com seu modus de fazer política. É véspera de um novo ano, quando renovadas esperanças deveriam estar em todas as cabeças. Faço essas reflexões na fria madrugada de Paris de 31 de dezembro. Ontem o dia foi cansativo para o velho matuto de Bebedouro, deslumbrado ao rever tanta coisa bonita. Após percorrermos, Nadja e eu, sob persistente chuvisco, a Champs Elysées iluminada, do Arco do Triunfo à Praça da Concórdia, disse de mim para comigo: Paris bem que vale uma garoa. (*) É médico e professor da Ufal.