Opinião
Poder p�blico omisso
A passagem de ano é sempre um momento de confraternização, de beijos, de abraços, de pipocar de fogos de artifício, de estourar garrafas de espumante, como a Veúve Cliquot, a mais devastadora das cidras. É um momento único em que se desejam paz, saúde, felicidade. Mas nem todos estão gozando férias nesta época, há os que, mesmo a contragosto, em decorrência da natureza de seu ofício, como os médicos, policiais e jornalistas, precisam continuar trabalhando e também, inevitavelmente, precisam dormir nas horas destinadas a esta indispensável função fisiológica. Maceió passou o réveillon cheia de turistas. Os hotéis lotados, os da orla não tinham um único apartamento nem que fosse para o papa. Um casal amigo, com mais de 30 anos de casados, morador da região, desesperado com a barulheira infernal que prometia emergir de uma boate saiu à procura de hotel, pousada ou seja lá o que dispusesse um quarto e não encontrou nada. Eles tentaram até um motel, sem sucesso, porque nestes não se disponibiliza apartamento para toda a noite, que a procura rotativa então é imensa. Muitos casais, sem distinção de sexo ou certidões, fazem o seu réveillon entre quatro paredes. O casal finalmente conformou-se e passou o resto da noite acordado, afinal réveillon é apenas uma vez ao ano. O que ocorre em Maceió é que enquanto o poder público avançou muito em setores como o controle das áreas públicas na noite de réveillon, ele se mostra totalmente descomprometido com a paz e a tranquilidade dos que moram nas imediações de uma casa noturna ou boate que funciona diariamente, como é o caso de uma que abriu onde era a antiga Middô e que tem infernizado diariamente a vida dos moradores da região. Esta boate, insatisfeita com o réveillon, ainda promoveu um pré-réveillon, na passagem do domingo, 27, para segunda-feira, 28, pleno dia útil de trabalho e inviabilizou novamente o sono dos moradores da região, caracterizada por grande concentração de apartamentos, que pagam um altíssimo IPTU ? estes moradores prejudicados e abandonados devem pagar IPTU? O nosso poder público municipal precisa ver os bons exemplos de outras cidades mais civilizadas em relação à cidadania. Em Ipanema no Rio, os moradores de uma rua impediram que ali se instalasse uma escola de crianças somente porque iria tumultuar o trânsito. Aqui, em plena zona residencial nobre, como a Ponta Verde, se reabre uma boate das mais pesadas, se inferniza a vida dos pacatos moradores da região e o poder público municipal fecha os olhos e se omite totalmente. (*) É médico e professor da Uncisal.