Artigo
Criar filhos numa bolha tem um preço
Uma criança pode tirar boas notas e, ainda assim, crescer sem aprender a respeitar quem pensa diferente. O debate sobre homeschooling, ou educação domiciliar, vai muito além de decidir onde os filhos estudarão. Também exige perguntar que adultos formamos ao afastar crianças de crenças e modos de vida que a família não aceita.
Essa preocupação ganhou força no lançamento do livro Homeschooling Protestante: entre a guerra cultural e a teologia do domínio, do doutor em Ciências da Religião e professor Jairo Rivaldo da Silva, promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Unicap. Sua pesquisa mostra que, em certos grupos religiosos, ensinar em casa pode estar ligado à desconfiança da escola e da diversidade.
Na sala de aula, crianças convivem com colegas de outras religiões, classes sociais e configurações familiares. Há conflitos e desconfortos, mas também aprendizado. A democracia começa a fazer sentido quando entendemos que ninguém precisa pensar como nós para ter os mesmos direitos.
É verdade que a escola não é o único espaço de socialização. Igrejas, clubes, esportes e cursos também aproximam pessoas. A diferença é que muitos desses ambientes são escolhidos pelos pais, que podem selecionar os grupos e as ideias aos quais os filhos terão acesso. A escola oferece encontros fora desse controle.
Maceió Transfere Feriado do Dia do Professor para Esta Sexta (16)
Mudança no Comando de Alagoas: Fábio Bittencourt Assume o Governo
Prefeitura de Maceió envia à Câmara Municipal projeto de Lei Orçamentária Anual
Justiça Eleitoral cassa diplomas de prefeita e vice de São Luís do Quitunde
Justiça Eleitoral cassa diplomas de prefeita e vice de São Luís do Quitunde
O alerta se acende quando a educação domiciliar passa a ser defendida como proteção contra professores considerados doutrinadores, discussões sobre gênero, outras religiões ou interpretações diferentes da história. Proteger crianças da violência é necessário. Impedir que conheçam ideias incômodas é outra coisa. Uma convicção que só resiste enquanto ninguém a questiona dificilmente prepara alguém para viver em sociedade.
Essas crianças vão crescer e trabalhar em hospitais, escolas, empresas e repartições públicas. Um médico não escolhe pacientes pela religião. Um juiz não pode decidir apenas para quem compartilha de sua moral. Conhecimento técnico importa, mas respeito à diferença também se aprende.
A escola brasileira enfrenta problemas sérios, da falta de estrutura à sobrecarga dos professores. Isso exige investimento e mudanças, não o abandono da convivência coletiva. Também não seria justo atribuir a todas as famílias interessadas em homeschooling motivações religiosas ou intolerantes. O problema está nos projetos que tratam a diversidade como ameaça.
Educar não é apenas transmitir conteúdo nem reproduzir dentro dos filhos todas as certezas dos pais. É ajudá-los a conhecer o mundo, pensar por conta própria e reconhecer a dignidade de quem vive de outra maneira. Criar filhos numa bolha pode parecer proteção por algum tempo. Mas eles terão de sair dela. E o mundo real não pede licença para ser diferente.