Opinião
Terrorismo e tortura
Parodiando o médico/economista Sérgio Barroso, a frase é do ? insuspeito? Henrique Meirelles: Em 2010 o Brasil poderá chegar aos índices de crescimento só vividos na década de 70, no regime militar. Paradoxalmente, esse modelo econômico desenvolvimentista convivia com tenebrosa repressão. Em novembro de 69, o comunista Carlos Marighella foi fulminado numa emboscada na capital paulista. Defensor da luta armada, expulso do PCB, a cabeça do ativista fora entregue de bandeja por frades dominicanos, após indescritíveis sessões de tortura comandadas pelo sanguinário delegado Sergio Fleury. Guru de alguns jovens de classe média que buscavam apimentar suas existências em aventuras gauchistes, Marighella era o inimigo número 1 do regime militar. Fundador da ALN, Marigella não deixa dúvidas sobre as atividades que o nortevam. Com efeito, no seu Minimanual do Guerrilheiro Urbano, ele diz sem meias palavras: ?Hoje, ser ?violento? ou um ?terrorista? é uma qualidade que enobrece qualquer pessoa honrada, porque é um ato digno de um revolucionário engajado na luta armada contra a vergonhosa ditadura militar e suas atrocidades?. Às vezes, à revelia da orientação dos Comitês Centrais dos tradicionais partidos comunistas, mais cautelosos, outros grupos radicalizaram a intenção de implantar à força outra ditadura e também partiram para o tudo ou nada do confronto armado. Fazem parte dessa quadra o VPR de Lamarca e Iavelberg e o MR8 de Franklin Martins, dentre outros. ?Estela?, hoje conhecida como Dilma Roussef, era artilheira do time da VAR Palmares, não menos ousado e violento. Embora assaltos a bancos e casas residenciais, alguns julgamentos sumários e outras ações ?menores? façam parte do histórico dessa turma, certamente o feito mais espetacular foi o sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, que serviu de moeda de troca para libertar prisioneiros, inclusive o alagoano líder estudantil Vladimir Palmeira e o paulista José Dirceu, comandante-em-chefe da quadrilha dos mensaleiros do PT ? segundo o Ministério Público. Teóricos, historiadores e outros bisbilhoteiros discutem o que veio primeiro: se a tortura ou a luta armada (o terrorismo, a ?guerrilha urbana?). Excrementos do mesmo intestino, o fato é que eles existiram, fazem parte da nossa história e precisam ser bem revelados. O que não dá é antecipar que o mundo se dividia em dois blocos: o dos anjinhos (terroristas) e o dos perversos (torturadores). (*) É médico e professor da Ufal.