Opinião
Trabalho e viol�ncia
Domingo é dia reservado para o descanso. É assim para a maioria. Alguns, todavia, por absoluta necessidade precisam labutar. Entre os trabalhadores que laboraram todos os domingos está um rapaz que ao amanhecer começa a erguer a sua tenda de brinquedos infantis na Av. Silvio Vianna, naquela parte que é proibida aos automóveis e onde as famílias levam as crianças para brincar. É uma digna prestação de serviços. Na madrugada de domingo passado, os moradores da região foram acordados bruscamente ao alvorecer e testemunharam uma cena das mais deploráveis. Alguns rapazes, após uma longuíssima noitada de farra na boate que sucedeu a Middô, alterados pelo que possam ter consumido, dentro de um carrão novinho, passaram por cima dos componentes da tenda que o cidadão ao amanhecer do dia tentava montar para uso posterior das crianças. Como o estrago de seu instrumento de trabalho foi grande e totalmente injustificado, o trabalhador em uma reação natural, xingou os rapazes que saindo da longa noitada de farra lhe estragavam o seu instrumento de sobrevivência. A reação foi terrível. O rapaz que pilotava o carro desceu sem camisa mostrando o peitoral malhado e sarado em academias e, logo se juntando com vários outros companheiros de farra, passou a cercar e agredir o trabalhador, que sozinho corria para um lado e para o outro, tentando desesperadamente se defender. Repentinamente, eram oito, dez rapazes, todos fortões e grandões, alguns ainda com garrafas de uísque semi-cheias nas mãos querendo acabar com o trabalhador. Este ? cercado pela turba ensandecida ? habilmente só fazia se defender da tentativa coletiva do grupo de jovens bem-nascidos de massacrar um trabalhador, que procurava somente ganhar o seu pão trabalhando honestamente aos domingos. Os moradores acordados de seu repouso domingueiro pelo barulho e os porteiros dos prédios da região, temendo o pior, apelaram à polícia: em vão. Milagrosamente, a vítima conseguiu escapar à tentativa de massacre. Depois de um tempo que pareceu uma eternidade, os garotões fortões, rugindo seus carrões e logrados em seu intento de massacrar o trabalhador se foram. Sou solidário aos pais destes jovens que repentinamente se transformaram em seres violentíssimos. Eles sabem onde seus filhos andam e o que estão fazendo? Em uma época tão violenta, o risco que acarretam e o que correm? Creio que eles não os criaram para isto, mas antes que algo pior aconteça não custa os alertar e lembrar o respeito ao ser humano e em especial ao que trabalha digna e duramente para sobreviver. (*) É médico e professor da Uncisal.