Opinião
Insond�veis mist�rios
As catástrofes acompanham o homem desde e sempre. A primeira de todas ? embora sem vítimas fatais ? foi a expulsão do Paraíso Terrestre depois da diabólica tentação da serpente, cujos desagradáveis desdobramentos perduram até hoje. Expulsos do Éden, sangue suor e lágrimas marcariam a nossa trajetória ao longo dos séculos. Depois veio o dilúvio que dizimaria a espécie humana e boa parte dos animais terrestres. Foi naqueles rompantes de arrependimento divino com a criação do homem... Felizmente para nós todos existia um homem digno. Com efeito, graças ao comportamento do bom Noé e a sua robusta arca é que estamos aqui recontando essas histórias. Com a proverbial memória curta, logo os homens e as mulheres esqueceriam as águas do dilúvio e cairiam na gandaia. Sodoma e Gomorra, dentre outras, se notabilizariam por práticas sexuais heterodoxas, que na época eram repudiadas pelo Criador. Teria sido uma negociação dolorosa com o líder Abraão. Vale a pena relembrar que Jeová exigia 50 moradores honestos para livrar as cidades da Sua infinita ira. Abraão conseguiu baixar o nível de cobrança para 10, e mesmo assim não havia esse quórum. Sodoma e Gomorra hoje não passam de uma pintura na parede. Mas como dói. A maior das tragédias ainda estava por vir: a crucificação de uma das pernas da Trindade, o Filho do Homem que, pregando o perdão, aqui veio para nos libertar do famigerado pecado original, indelével nódoa anímica somente lavável com o sangue do próprio Deus. Não obstante, sem aviso prévio, de quando em vez a natureza ruge descontrolada provocando destruição e mortes. Insondável mistério, pois ao contrário do que ocorria antigamente, no mais das vezes não se sabe quais os critérios que norteiam essa sede de vingança da Mãe Natureza. Neste início de ano, muitas cidades brasileiras sentiram o gosto amargo da desolação com uma quantidade inesperada de chuvas. Estatisticamente, contudo, as perdas humanas enquadrar-se-iam dentro de ?aceitável? parâmetro. ?En passant?, assinale-se a fala frívola do presidente Lula, ao apelar para recorrente tendência de ser engraçado com as tragédias que ocorrem no país durante sua gestão. A perspectiva é que o presidente tente se manter sereno e compungido com a hecatombe que se abateu no Haiti. Se castigo de Deus ou simplesmente fenômeno natural, é uma catástrofe de dimensões ainda não bem estabelecidas. Nesse contexto, a morte de Zilda Arns é a priori irreparável. (*) É médico e professor da Ufal.