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Feliz Dia do Aposentado, Betinha

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Ainda lembro-me de Tia Beta. Tia avó do Recife, viajava a Maceió mensalmente para receber sua aposentadoria. Por que aqui? Nunca soube. Embora aniversariasse em agosto, recebia meus parabéns no dia de hoje também. Ao telefonar para me felicitar pelo meu aniversário, também escutava os parabéns em tom de brincadeira pelo dia dos aposentados. Brincadeira que nunca a agradava (detestava mesmo ser chamada de aposentada), mas ria quando eu falava pelo simples prazer de me agradar. Verdadeiro presente. Passado os anos, envolvido profissionalmente com o tema da aposentadoria e, mais interessante ainda, com as pessoas que se encontram ante esta vivência, pergunto-me se brincaria com Tia Beta hoje, se ela ainda me telefonasse. No dia 24 de janeiro é comemorado o Dia dos Aposentados devido à assinatura da Lei Eloy Chaves em 1923, criando o fundo de aposentadoria e pensões dos funcionários de empresas privadas de estrada de ferro. Até então, a Previdência Social atendia apenas os funcionários do governo federal. Não citarei dados estatísticos e teóricos sobre o tema, o que pode ser uma dificuldade para sustentar argumentos, mas uma dúvida: como é possível, hoje, o trabalhador ter uma auto imagem positiva na aposentadoria? Nos dias de hoje, em que tias avós não se fazem tão presente na organização familiar, apenas para ilustrar mudanças na sociedade como um todo, quais as referências para construir a imagem do aposentado que serei amanhã? Pode-se construí-la, como tudo que diz respeito à questão identitária do ser humano. Herança da pós-modernidade... Mas virá com esta construção um espaço, por mínimo que seja, para que o trabalhador possa elaborar os sentimentos de luto pelos 30, 35 anos ou mais de trabalho passados? Espaço para investir na vida que não continua, porque na verdade ela nunca parou? Haverá espaço para a constatação saudável, sem culpas de que se acreditou que era preciso (e talvez fosse mesmo) investir mais no trabalho em determinado momento e para isso foi preciso deixar de investir em outras questões? São perguntas incômodas, mas que precisam ser respondidas para que o encerramento de uma etapa da vida inicie outras sem pendências e futuras cobranças. Assim parabenizo os aposentados pela conquista do reconhecimento institucional da necessidade de preparo para o ato de retirar-se do trabalho e investir em novos horizontes. Embora seja um direito conquistado pelo cidadão, sua vivência não se dá sem alguns percalços. A visão de si como aposentado requer algum investimento psíquico e tolerância à frustração dos planos idealizados e expectativas sonhadas, o que mobiliza angústia. Que as angústias próprias do período sejam motor do desenvolvimento de formas saudáveis de encerrar um tempo de trabalho e usufruir desse novo tempo em novas apostas. Espero não esquecê-la, Betinha. (*) É psicólogo da Ufal e picoterapeuta.

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