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Saber pensar o ser

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O ser, ao se mostrar, seduz o pensamento. Por ser ?máxime scibile?, sempre fascina, como tesouro a ser procurado. Assemelha-se o pensamento a um espelho, sem nada aprisionar, mas sem nada rejeitar. Reflete, mas não se apossa. Por mais paradoxal que pareça, pensar o ser é limitá-lo, tudo porque, sendo ?máxime scibile?, sempre está para além do pensamento. Em tudo isso, o importante é deixar ? ser , quer dizer ? na fadiga do buscar ser verdadeiro jardineiro que, ao cuidar das flores, deixe ser o jardim. Ensinar na vida, não é apressar-se na busca de um saber e de uma postura: não é tornar-se vento impetuoso a balançar a mangueira, ocasionando a queda de seus frutos, ainda verdes, no solo da secura. A fadiga na busca do ser está em se querer, apreender, subitamente, toda a riqueza do que é ilimitado, em potência. Necessário se faz pensar o ser, no horizonte das montanhas, sem esquecer o deixar ? ser das pedras e das saliências do caminho. Tales de Mileto refletia, certa feita, sobre o significado dos astros para a existência e, olhando para o firmamento estrelado, caiu num buraco da estrada. Foi quando uma mulher do povo que a tudo assistia, dele riu e galhofou: ?Aquele ali se preocupa tanto com o que se passa no céu que não tem olhos para ver o que está acontecendo debaixo de seus pés?. Com efeito, procura, o mais das vezes, o pensamento apreender o ser no mais alto do seu conteúdo, até as estrelas, sem perceber o deixar ? ser que vive, naturalmente, acontecendo nas pedras e nos sulcos da estrada. Numa palavra, a linguagem do pensamento tem de refletir, continuamente, o sentido do ser no enredo do mundo, sem desrespeitar o deixar ? ser do cotidiano indefinível no seu potencial de riqueza Convençamo-nos de que por mais que o ser humano descubra a verdade do ser, resta-lhe, ainda, um ilimitado espaço não explorado do deixar ? ser ignorado. É esse deixar ? ser que fascina a procura da pesquisa. Fine finaliter, diante do ser, o trabalho do pensador é qual a de um passarinho que fosse, a cada ano, afiar o bico nas escarpas de uma gigantesca montanha, com o intuito de destruí-la. Impossível ao passarinho desfazer a montanha, como é, da mesma maneira, impossível ao pensar captar todo conteúdo do ser em potência. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios e presidente da Academia Alagoana de Letras.

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