Opinião
Tardias, mas certas
Vaticínio comum à filosofia popular nordestina garantia que ?as chuvas (e/ou trovoadas) de janeiro tardam, mas não faltam!?. Tradução do aprendizado acumulado, o dito avisava da certeza da chuva em meio ao tórrido verão nas semanas vizinhas à virada de ano. Em tempos nem tão longínquos assim, outro preságio sobre as chuvas de verão garantiam que falariam com mais rapidez os bebês que bebessem das águas que caíssem acompanhadas de trovões no primeiro mês do ano. Daí, quando surgia uma criança falando pelos cotovelos, o veredicto era certeiro: ?Vixe, parece que tomou água [das trovoadas] de janeiro!?. Tais ditos do saber popular ? mormente temperados com bom humor ? eram o testemunho prático da sabedoria do povo, num tempo onde nem os de menos leitura se assustavam com as intempéries. Sabia-se que, além da tradicionalíssima chuvarada de meio do ano, encharcando as festas juninas, os verões de janeiro eram propensos a pancadas d?água, com o particular efeito especial do trovejante acompanhamento sonoro. Contraditoriamente, o avanço da tecnologia e a universalização da linguagem parece que findaram por desarmar o povo, especialmente segmentos mais letrados, das normas da natureza. Esquecemo-nos das águas, e dos trovões, de janeiro? E como já avisavam os oráculos, podem atrasar (chegando em fevereiro, ou depois... quem se lembra de Elis Regina cantando ?águas de março??), mas comparecem. E é pau, é pedra, tudo levado pela água, mas não é o fim do caminho; é apenas um momento no ciclo natural. Manter limpas as galerias de águas pluviais, liberar córregos e ravinas... são tarefas básicas para os serviços públicos. E, a cada um, em cada casa, cabe o mister individual de limpar as calhas, liberar os pontos de escoamento, consertar pingueiras nos telhados... desde antes, pois as águas de janeiro até tardam, mas não faltam.