Opinião
A menina presidente
Existem momentos na vida em que cada pessoa, em recordando e tendo sido personagem principal, emociona-se e assume um papel interessante na história, máxime se conseguiu alcançar uma posição de destaque na sociedade, a mesma que lhe viu sofrer e que não lhe oferecera apoio. Refiro-me à Desembargadora Elisabeth Carvalho, eminente presidente do Tribunal de Justiça deste Estado, em face de seu pronunciamento no Fórum da Capital, no encerramento do ano jurídico de 2009, diante de inúmeras crianças que ali foram a seu convite, para receberem presentes, coisa rara para uma classe que vive abaixo do nível suportável de pobreza. Contou a história de uma menina pobre que viveu na casa de parentes, esforçando-se para estudar e, mais adiante, em situação desvantajosa, não dispunha de meio de transporte para ir à escola, não tinha condições de alimentar-se devidamente e nem aquele carinho que cada criança carece para viver e crescer como gente, no exercício pleno de sua cidadania. Sofreu, cresceu e venceu. Hoje, aquela menina carente é a própria , tornando-se presidente e chefe do Poder Judiciário do nosso Estado. Este articulista não se conteve, foi ao encontro daquela figura respeitável, deu-lhe um abraço emocionado e confidenciou-lhe que a história contada, em muitos detalhes, é semelhante à sua, pois, seguindo a mesma carreira da desembargadora, logrou aprovação no concurso de juiz de Direito , aposentando-se a nível de desembargador, por força da legislação que lhe deu amparo, depois de percorrer várias comarcas no interior do Estado, numa época onde o computador não existia e a conhecida máquina Olivetti servia de instrumento principal de trabalho, sem dispensar a borracha que ?deletava? os erros. Imaginem o tempo gasto numa audiência e para prolatação de sentenças e despachos! Pois bem, completando o capítulo, sem nenhum constrangimento, ao contrário, com orgulho, acrescento que o menino de Viçosa, cujo pai, ?Seu Quinca?, com 12 filhos, sustentava a família dirigindo um surrado caminhão Ford, denominado ?Queixo duro?, porque mudar de marcha era um penoso exercício, (que o diga o desembargador Gerado Tenório), levando cana à Usina Boa Sorte, do saudoso Menestrel, já foi até balconista, num quiosque na feira da sua cidade e transportou sacos de milho e feijão para o veículo de seu genitor, que não podia pagar carregadores. Além disso, comparecia às aulas a pé e estudava em biblioteca pública ou pedia livro emprestado a colegas, posto que não podia comprar livros! Lógico que não havia o auxílio importante da internet. O menino, várias vezes, sem recurso para as refeições normais, em trabalho que conseguiu como auxiliar de classificador de algodão, alimentava-se às vezes de pão doce com caldo-de-cana, por sinal apetitoso e vitaminado. Não havia lamento, insubordinação ou preguiça. Foi assim a infância desse menino: trabalho, disciplina, respeito aos pais, aos amigos, aos mestres e às pessoas. Um conselho à juventude deste século: estude e seja um dos melhores porque a concorrência é grande e, nem sempre a herança ultrapassa a terceira geração. Só o saber triunfa. Assim agindo, surge a vitória. (*) É membro da Academia Alagoana de Imprensa e da Academia de Magistrados. Email: [email protected].