Opinião
Somos capazes de operar milagres
Assim como milhares de pessoas, em várias partes do mundo, estou extremamente sentido com a morte da médica Zilda Arns. Pediatra, com especialização em saúde pública, alargou sua área de ação. Sempre admirei o trabalho dessa mulher que compreendo como a Madre Tereza brasileira. Apesar de ela mesma não ter sido uma freira, a sua família vem de uma forte tradição católica, contando com três irmãs religiosas e dois irmãos sacerdotes franciscanos, entre eles, Dom Evaristo, arcebispo emérito de São Paulo. Ao ler o texto do discurso que Zilda faria no Haiti naqueles dias, é possível alcançar a beleza da pessoa humana e da força do trabalho que essa brilhante mulher encabeçou ao longo desses 28 anos da Pastoral da Criança e vários outros da Pastoral do Idoso. Somente alguém com uma grande dimensão de luz espiritual e consciência social foi capaz de coordenar um trabalho de tamanha envergadura. Zilda realizou, na prática, o milagre da multiplicação dos pães e peixes, mostrando nossa capacidade de compartilhar com os necessitados nossos saberes e competências. Diz o ditado popular que quando o discípulo está pronto o mestre aparece. Eu diria, nesse caso, que o mestre e a missão aparecem. Assim foi com Zilda, quando em um momento de solidão pela perda do marido, dom Evaristo a provocou com a proposta de salvar vidas de crianças que morriam por desnutrição. Aquela fala soou para ela como a missão para qual se preparou durante toda sua vida. Seu espírito evangélico prevaleceu. A morte trágica pode parecer para os mais céticos como prova da não-recompensa divina pelos seus préstimos. Eu diria diferente: Zilda morreu fazendo o que mais acreditava ? a solidariedade, o bem mais precioso que conquistou nessa vida e que aumentou sua família terrena de forma exponencial, com crianças e idosos que ajudou a salvar de morte cruel, por falta de cuidados. ?A doutora Zilda Arns nos deixa, de herança, o exemplo de que é possível mudar o perfil de uma sociedade com ações comunitárias, voluntárias, da sociedade civil, ainda que o poder público e a iniciativa privada permaneçam indiferentes ou adotem simulacros de responsabilidade social?, disse Frei Betto. A essa mulher maravilhosa ? com quem conversei duas vezes ? manifesto toda minha admiração e respeito, desejando que outras pessoas com sua mesma capacidade de doação possam ser autoras de outros milagres. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.