Opinião
O Nordeste e a Copa de 2014
Das doze cidades-sede escolhidas para jogos da Copa de 2014, quatro são do Nordeste. Ótimo para se alcançar metas de atendimento na área de saneamento, isto sem levar em conta a drenagem urbana e a gestão de resíduos sólidos (lixo). De fato, os organizadores e investidores do evento milionário estão muito preocupados com o que poderá ser feito para vencer os desafios que os cercam. Não é só a falta de água e de esgotamento sanitário nas cidades, pois isso sempre foi fácil de resolver, bastando ter projetos de engenharia, recursos financeiros e boa execução de obras. Fazer com que por causa da Copa de 2014, em Fortaleza, Natal, Recife e Salvador, sejam solucionados os graves problemas de mobilidade urbana e regional (excesso de veículos, ruas de menos e baixo nível de planejamento urbano) ou a falta de energia elétrica com a existência de apagões transitórios regulares ou os aeroportos ? shoppings com dificuldades para atender as demandas ou as telecomunicações congestionadas ou, por último, a rede hoteleira subdimensionada e com padrão abaixo do requerido pelos visitantes, é brincar com o que resta de inteligência do povo brasileiro. Há também a preocupação com os estádios de futebol dessas cidades, pois será necessário construir arenas multiuso para serem transformadas após a Copa de 2014, quem sabe, em áreas de contemplação e visitação, talvez templos, nestes nossos dias de multiplicação de igrejas, já que o futebol naquelas cidades, ainda que evolua muito, jamais deixará de usar os estádios existentes para jogar nas arenas herdadas dos dois ou três dias de jogos. A preocupação deve ser assumida pelos governos federal, estadual e municipal, pelos Legislativos e até pelas esferas do Judiciário, diante dos riscos que a realização da Copa representa quando se observa que se fala em investimentos em estádios novos e saneamento, sem se tocar na palavra planejamento. Hoje se pode falar na ausência de planejamento urbano e na falta de gestão das cidades sem medo de errar, simplesmente contando os mortos e danos materiais causados pelas chuvas recentes em São Paulo , no Rio de Janeiro, em Santa Catarina, em Porto Alegre e, tão logo chova mais forte, no Recife, Salvador, Fortaleza, Natal, Maceió, João Pessoa e em mais cidades onde a invasão de terrenos, a falta de casas e a pobreza, se juntam para condenar a gestão pública ineficiente, o interesse oportunista do Legislativo e a existência de um sistema legal que protege quem erra. Pela forma como a Copa de 2014 vem sendo tratada, teremos cidades com padrão europeu nos trechos aeroporto-hotel-estádios-áreas turísticas, enquanto o resto ficará esperando uma nova Copa do Mundo de qualquer coisa. (*) É engenheiro civil e diretor Nordeste da Abes.