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Opinião

A morte de cada um

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Elogiada à esquerda, à direita e no centro, até ontem pensava que a médica Zilda Arns era uma das poucas unanimidades nacionais. Através da internet, uma mensagem transcrevia comentários azedos (para dizer o mínimo) pondo em dúvida a dimensão do seu trabalho à frente da Pastoral da Criança. Para o texto iconoclasta, doutora Zilda seria um produto da mídia conservadora em busca de ícones originados na pequena burguesia católica branca de olhos azuis. E completava: fosse negra e tivesse o sobrenome Silva ou Santos em vez do pomposo ?Arns?, viveria e morreria sem ter essa projeção. Essas considerações só confirmam a assertiva de que ?ninguém escapa do comentário malsão?, nem Cristo (nem, agora, Zilda Arns), tese, aliás, defendida pelo saudoso professor Humberto Cavalcante. Tendo escutado e lido que a doutora Zilda Arns teria morrido feliz, por estar fazendo o que mais gostava, ouso concluir que as pessoas zombam da inteligência alheia. Imagine-se o papa rezando uma missa na Basílica de São Pedro e a terra começasse a tremer descontrolada, os rebocos do teto desabando, as colunas partindo-se, pessoas gritando desesperadas, e de repente sua santidade soterrado. Alguém aí mais açodado é capaz de sair dizendo que o papa morreu feliz porque, digamos, estava fazendo aquilo que mais gostava? Ao contrário do que se quer induzir a crer, deduzo o pavor da pobre senhora ao perceber o solo convulso e os desmoronamentos. Se houve algum lapso de tempo, deve ter sido de muita angústia e desespero, até pelas coisas que ela eventualmente tenha assistido. Tudo é relativo. O falecido Dirceu Falcão, inquieto mago da cirurgia alagoana no século passado, costumava profetizar diferentes alternativas em que gostaria de morrer: 1) Proferindo palestra; 2) Operando; e 3) Numa celebração amorosa. Na infância, havia em Bebedouro um sujeito que se dizia ex-combatente, ferido nas escaramuças de além-mar. Não obstante ser um compulsivo mentiroso, os meninos o cercavam para ouvir suas histórias mirabolantes. À boca miúda dizia-se nunca haver dado um tiro. Sequer tinha viajado de Ita. A ?platina? na perna fora adquirida depois de um escorregão no lamaçal do Mercado Público, motivo da reforma como herói. De quando em vez exaltava-se e se via lutando contra inimigos imaginários. Seu sonho era morrer num campo de batalhas enfrentando nazistas e comunistas. A morte, traiçoeira, ingrata e irônica, visitou-o inglória enquanto defecava. (*) É médico e professor da Ufal.

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