Opinião
Os pres�pios foram desmontados. E agora...
Os antigos egípcios diziam que todas as coisas temem o tempo, mas o tempo teme as pirâmides. Na verdade todas as coisas temem o tempo, porque quando ele passa leva tudo. Com o tempo o presente se torna passado e o futuro se torna presente. Mas, nós não temos uma ideia certa sobre o que é o passado. Passado é aquilo que não passou, é o que ficou em nós do que passou. Daí, tantos passados que se tornam mais presentes do que o próprio presente. Passou o Natal. Os presépios foram desmontados. Guardamos a árvore e os enfeites de Natal e retomamos nossa rotina diária. Liturgicamente, a Igreja celebra o Natal até a festa do Batismo do Senhor, que neste ano aconteceu no dia 10 de janeiro. Mas já depois do dia 25, sobretudo no ano-novo, os meios de comunicação já anunciam o Carnaval brasileiro. E agora? Não veremos mais o presépio em nossas igrejas, nem contemplaremos a imagem do Menino Jesus que tornou visível o nosso Deus invisível. Onde vamos encontrá-lo? Surge, então, a verdade de que como batizados precisamos assumir nossa identidade cristã de fato, em toda sociedade, dando testemunho concreto e real de nossa fé, iluminando a humanidade com a luz da presença de Jesus contida em nós. Devemos nos lembrar do que os bispos da América Latina escreveram no Documento de Aparecida. Quando cresce no cristão a consciência de pertencer a Cristo, em razão da gratuidade e alegria que produz, cresce também o ímpeto de comunicar a todos o dom desse encontro. A nossa missão não se limita a um programa ou projeto, mas é compartilhar a experiência do acontecimento do encontro com Cristo, testemunhá-lo e anunciá-lo de pessoa a pessoa, de comunidade a comunidade e da Igreja a todos os confins do mundo (At 1, 8). Bem afirmou o Papa Bento XVI que ?o discípulo, fundamentado assim na rocha da Palavra de Deus, sente-se motivado a levar a Boa Nova da salvação a seus irmãos. Discipulado e missão são como as duas faces da mesma moeda: quando o discípulo está apaixonado por Cristo, não pode deixar de anunciar ao mundo que só Ele nos salva (At 4, 12). De fato, o discípulo sabe que sem Cristo não há luz, não há esperança, não há amor, não há futuro?. (Discurso inaugural de Bento XVI na 5ª Conferência Geral do Celam). Eis o que nos deixou o Natal. Não haverá problema algum em montarmos ou desmontarmos o presépio. O importante é que a luz de Cristo brilhou para nós. O Natal deixou-nos com a tarefa cotidiana de permitir que essa luz ilumine todos os âmbitos de nossa vida, o trabalho, a vida em família, a convivência no serviço divino e o engajamento político. Só nos resta pedir ao Senhor, quando surgem as névoas da dúvida, do cansaço ou da dificuldade, que Ele nos ilumine com a sua Palavra e nos ajude a sentir a beleza e a alegria de ser cristão. (*) É pároco da Catedral.