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Opinião

Dor

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Desculpe-me, estimado leitor, em retornar a um assunto tão pesaroso e que nos deixa estomagados, porém me pareceu que estava diante de uma premonição. Eu tinha acabado de colocar ao papel minha indignação com o que tinha ocorrido com os gaúchos, paulistas e mineiros, aqui nesse mesmo espaço, e, pasmo, vejo nos canais televisivos, ao rebentar o novo ano, a repetição do drama, dessa feita em Angra dos Reis, em uma escala ainda maior, como se fosse uma reedição desses filmes que se repetem, cansativamente, mudando apenas o número que vem logo após o título. Naquela cidade, 52 pessoas morreram em consequência dos escorregamentos de terra em regiões que as autoridades permitiram ou ? ainda mais grave ? incentivaram a ocupação, não movendo uma palha sequer para impedir que moradias fossem construídas nessas áreas frágeis e de altíssimo risco. Ninguém, indignado leitor, ninguém assumiu os erros e as suas responsabilidades. O culpado, como sempre, foi o melífluo São Pedro, que abriu as porteiras do céu e permitiu que um dilúvio desabasse sobre Angra dos Reis. Bocejo de tédio ao ouvir as digníssimas autoridades cariocas repetirem a mesma ladainha, a mesma cantilena, como um disco de vinil arranhado: ?Choveu nesse dia o que chove em uma semana?. Ou então: ?Choveu de forma intensa em poucas horas?. Outra maneira de essas autoridades livrarem a pele é procurar colocar a culpa, sem corar e na maior desfaçatez, sobre as que as antecederam. Sai governo e entra governo e é a mesma conversa fiada. E essa é uma verdadeira praga nacional, que de há muito merece um estudo científico aprofundado. É entediante: quando não apontam o dedo incriminador ao santo, lançam a culpa nos antecessores e, ultimamente, ao aquecimento planetário. Ou, então, aos três juntos. E depois, angelicalmente, falam da dor da perda, do sofrimento e da angústia profunda que eles estão a sentir pelas perdas das vidas. Ora, façam-me o favor! Como se atrevem a falar de sentimentos se deles, na verdade, não sabem nada. Os poderosos sempre falam com falsa indignação, com sombrio enternecimento, da crueldade, do crime, da perda de vidas e não sabem o que existe de real por trás das palavras que derramam das suas bocas. Ninguém, amigo leitor, ninguém está autorizado a falar de sofrimentos, sacrifícios, dor e perdas, exceto as vítimas da inércia, da irresponsabilidade e do desapreço. (*) É superintendente da Casal.

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