Opinião
Muito al�m do lucro
Se não bastassem alguns compostos estimulantes que a natureza oferece em abundância, os homens têm se esforçado para produzir outros tantos muito mais ativos, de incalculável potencial devastador sobre o cérebro e o equilíbrio psíquico do consumidor. Nesse grupo de substâncias ?amaldiçoadas?, o das anfetaminas ocupa lugar de destaque. Conhecidas há mais de um século, uma das últimas e explosivas versões é o Êxtase, moeda de troca em festas raves e outros que tais. Nem todos os derivados da anfetamina queimam no fogo do inferno. Um deles, o metilfenidato, é usado para controlar sintomas de uma síndrome conhecida pela sigla TDAH, distúrbio mais ou menos frequente, onde predominam comprometimento da atenção e hiperatividade. Tida até então como a tábua de salvação de alguns obesos, a sibutramina, uma prima das anfetaminas, está hoje no banco dos réus. Na Europa, as autoridades sanitárias recomendaram a suspensão da sua venda. É que estudos científicos apontaram para um aumento de complicações cardiovasculares entre seus usuários, taxa que teria se mostrado proibitiva para o consumo humano. Na verdade não é de hoje que médicos do mundo inteiro vêm observando efeitos colaterais, alguns muito importantes, na clientela da sibutramina. Com efeito, indicada como uma espécie de ?freio de arrumação? no descomunal apetite dos obesos, a sibutramina, além dos comprovados riscos para o sistema cardiovascular, costuma atuar de forma desastrosa sobre o psiquismo do cidadão, cujos sintomas variam da euforia desmedida até franca psicose, passando por comportamento impulsivo, crises de choro e inapetência sexual, dentre outros. Sob o peso do País ser o maior consumidor de anoréticos, endocrinologistas brasileiros não parecem dispostos a abrir mão dessa arma contra a gordura. De qualquer forma, um pouco de prudência e bom senso não fariam mal ao próximo. Não posso encerrar esses comentários sem referir-me ao caro amigo Galba Accioly. Como vitorioso e arrojado empresário, dignificou sua categoria. Afável e sério, na linha de frente das concessionárias, exercia como ninguém inexcedível habilidade de vendedor. Compradores tímidos, indecisos e descapitalizados como eu saíam de suas lojas de carro novo, felizes, certos de que tinham feito o melhor negócio do mundo. Muitas vezes era verdade. Sua morte precoce, depois de luta desigual com a doença, abre um vazio na cidade e no coração dos amigos. Galba já estava fazendo falta. (*) É médico e professor da Ufal.