Opinião
Um pesadelo chamado Haiti
Debruçando-me no texto do antropólogo Omar Thomaz, da Unicamp, chego à conclusão de que o Haiti, situado numa ilha e com 9 milhões de habitantes, não está sangrando agora em razão desse fatal e monstruoso terremoto ? o maior da região nos últimos 200 anos. O sangue haitiano está esvaindo desde a colonização espanhola, ainda com o desbravador Cristóvão Colombo. Mais tarde, quando a França assumiu o pedaço e transformou a ilhota em seu terreiro, os ventos libertários da Revolução Francesa despertaram consciências pelo mundo afora. No Haiti, inspirado pelo ideário bonapartista, Toussant L?Ouvertone liderava 500 mil negros, subjugados por uma elite de cinco mil brancos. A negritude se revoltou, quebrou os grilhões da escravidão e se libertou. O sonho mal começara e logo acabaria. Bonaparte não aceitou os termos de Toussant, retomou o controle do Haiti e exilou o líder negro em Paris, onde morreu prisioneiro. A histórica e trágica hemorragia social prosseguiria: de 1843 a 1934, 21 governantes ditaram os destinos daquele povo. 20 deles tiveram destino funesto. Época da malfadada Guerra Fria. Receosos com a suposta ?ameaça comunista?, os Estados Unidos resolveram financiar a ditadura do médico François Duvalier, o Papa Doc, e do seu filho, Baby Doc. Estes criaram a horripilante milícia secreta denominada de ?tontons macoutes? (bichos papões), que chacinaram milhares de haitianos por mais de 20 anos. Nessa época, a imprensa britânica publicou artigo pelo qual a bela ilha caribenha foi batizada de republiqueta do pesadelo. Até parecia que o sangue começaria a estancar: com a queda de Baby, Jean Bertrand Aristide assumiria o poder, mas logo seria afastado acusado de desonestidade. Hoje, a ilha dos negros possui metade da população analfabeta. 60% dela vive com US$ 1 diário. Nem as agulhas do vodu haitiano exorcizam os males produzidos por esses facínoras, que, por séculos a fio e sob ordens superiores, potencializaram a violência, a corrupção e a miséria. A intervenção americana nunca se preocupou em construir no Haiti instituições de Estado, para gerar cidadania e até tratar da prevenção, como fazem o Japão e o Chile, que também convivem com terremotos. Muito menos com a educação, tema que a saudosa Zilda Arns também enfocou em sua visita a Maceió, no ano passado. Portanto, todo esforço humanitário que os países colonizadores fizerem, neste momento de mais dor e consternação, ainda é insignificante diante da ganância do passado, que tanto fustigou o povo haitiano. (*) É jornalista.