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Ensaio sobre a cegueira do futebol

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A frase já está bastante surrada, mas nunca é demais lembrar que o futebol é uma das maiores, senão a maior paixão do brasileiro. No entanto, conhecemos muito pouco sobre os meandros dessa inesgotável fonte de alegria. O torcedor vai ao estádio ou assiste ao jogo pela TV e vê o espetáculo em dois atos. Nem precisava o locutor, aos esticados gritos, narrar o gol. O torcedor viu tudo. Ele sabe se um jogador é craque ou se é perna-de-pau; se é inteligente ou se lhe faltam alguns neurônios para realizar uma boa jogada. O torcedor vê o lance e os tira-teimas e sabe se o bandeirinha acertou ou não na marcação do impedimento; se a bola saiu pela linha de fundo ou pela lateral. Sabe, também, se o jogador colocou a mão na bola involuntariamente ou não dentro da área. Ele vê se o juiz está ou não apitando certo. Existem, porém, algumas jogadas decisivas que o torcedor não consegue enxergar. Ele sabe que a luta pelo título começa antes mesmo do início do campeonato, com planejamento financeiro, armação e preparação do time. Mas o torcedor não sabe se o seu clube está sendo bem administrado. Não conhece, por exemplo, o valor e o prazo dos contratos firmados com atletas e técnicos de futebol, bem como se há cláusula que preveja ou não multa rescisória. O torcedor quer saber por que o clube tem boas rendas; faz vultosos contratos de patrocínio; recebe recursos da televisão, das loterias do governo, dos sócios, das vendas de jogadores e só anda endividado. O torcedor gostaria, mas não vê o orçamento, o fluxo de caixa, as prestações de contas dos administradores, bem como não vê o parecer do Conselho Fiscal do Clube. Aliás, tenho uma curiosidade danada para saber quanto ganha o presidente de um clube de futebol. A gente sabe, por ouvi dizer, quanto ganha o jogador, o técnico e o diretor de esportes. Mas, quanto ganha o presidente? Só ele trabalha de graça, por amor ao clube? Diante dessa cegueira, o torcedor se pergunta: É ou não atribuição da imprensa e do Ministério Público fiscalizar nossos clubes de futebol? Se não é devia ser. A imprensa, eu diria, são os olhos que podem ver o que o torcedor jamais conseguirá enxergar, e os órgãos fiscalizadores do Estado são a espada que devia protegê-lo. Sem esses dois escudos protetores da sociedade, o futebol vai continuar sendo a maior paixão do brasileiro, para a alegria dos maus dirigentes. (*) É contador.

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