Opinião
Tudo tem sua maneira de ser
Poderíamos ser futuríveis. Entretanto, somos conscientes do amor onipotente. Existimos sem merecer. Somos um dom de quem tudo pode. Se somos dom resta-nos agradecer pelo presente da vida. Importa-nos concentrar a paciência na fidelidade de agradecer. Afirmava Carlyle que ser fiel é concentrar a paciência. Já que nossa existência é parte da beleza deste universo, é obra de arte que Deus quis construir conosco, então nada melhor que agradecer. Agradecer ao Senhor as sístoles e diástoles do coração, o expirar e inspirar de cada instante da vida. Tudo quanto acontece na existência tem sua maneira de ser. Agradecer as noites de lua ou de deslua, os dias de sol e de dessol. Após repentino naufrágio o único sobrevivente agradeceu a Deus por estar vivo, agarrando-se aos destroços da embarcação, na superfície do mar. Novamente, agradeceu ao Senhor por ter alcançado uma ilha desabitada mesmo fora de qualquer rota de navegação. Com muita dificuldade, usando o que sobrara da embarcação, conseguiu montar pequeno abrigo para proteger-se do sol, da chuva e dos animais. Mais uma vez rendeu graças ao Onipotente. A cada dia agradecia o alimento que colhia nos frutos ou na caça dos animais. Entretanto, de uma feita, quando regressava para o descanso, encontrou seu abrigo em chamas. Terrivelmente desesperado, revoltou-se contra o Criador, com lamentos e copiosas lágrimas: ?Tudo perdi, sou um infeliz. Por que fizeste isso comigo, Senhor Deus??. E adormeceu ferido na esperança. Mas, ao amanhecer, foi despertado pelo som repetido de um navio que, lentamente, se aproximava: ?Estamos aqui para resgatá-lo?, gritavam os tripulantes. ? Como souberam que eu me encontrava aqui ? perguntou o náufrago ? Nós vimos o sinal de fumaça e aqui estamos. Para o náufrago, aquele momento em que mais se revoltara, tornou-se ocasião de mais agradecer. Às vezes, o simples sinal de fumaça indica a presença de Deus, em todos os momentos da vida. No final, tudo tem sua maneira de ser, donde vale mais agradecer que desesperar, vale mais ponderar que vituperar, vale mais amar que odiar. O importante é saber que o Senhor nos conduz, com suas mãos entre as nossas e seus pés nos passos da nossa caminhada. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios e presidente da Academia Alagoana de Letras.