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C� eu fico

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Carnaval! Época de alegria. De muita música. De muita cachaça. De muita mulher. De rolar muita transa. Não importa quem seja ela: rica ou pobre; preta ou branca; alta ou baixa; feia ou bonita. Também, não importa onde, pois cada um navega no barco que pode. Época onde não se procura qualidade, mas quantidade. Onde todos são iguais. Onde, antes da ação devastadora do deus Tempo e da deusa Morte, aparentemente, se pratica a socialização das relações humanas. Como é bom ser jovem cronológica, psicológica e espiritualmente! Como é bom ter o ânimo e o vigor dos tempos idos! Ter a coragem de jogar toda e qualquer preocupação fora, encher a cara e cair, sem limites, na farra, na gandaia. Lembrarmo-nos de como outrora fomos tão diferentes do que hoje somos! De como éramos alegres e felizes e hoje somos tristes! De como outrora ríamos e hoje choramos! De como vivos éramos e mortos estamos! Em Viçosa a animação é grande: além de muita gente pra lá e pra cá, há carrinhos, carros e carrões para cima e para baixo. Há, ainda, os de malas abertas e com o som topado; várias camionetas carregando enormes caixas de som; pequenos, médios e grandes trios elétricos ? que não deixam de anunciar o nome dos ?grandes benfeitores? ? e até bicicletas dotadas de som fazendo um barulho infernal. Outros, com pequenas orquestras que só tocam o velho e agradável frevo, saem pelas ruas ?pulando?, parando de bar em bar e, como todos estão ?pra lá de Bagdá?, cantam, fazem pequenos discursos e não estão nem aí prá quem quer que seja. Que coisa bonita! Tudo é alegria! Tudo é festa! Afinal, não é carnaval? O povão se diverte acompanhando os blocos e dançando ao som das bandas e dos famosos trios. Ficamos perplexos porque vemos ?misturados? a ele, os ?outros?. Os ?outros? que só sabem ou vão à cidade para ?aparecer? em determinados eventos cívicos. Ficamos perplexos porque, ardilosamente, demonstram não haver nenhum tipo de diferença entre eles e o povão, pois nessas horas todos são conhecidos, iguais e grandes amigos! É incrível ver tanta amizade! Tantos ?amigos? juntos! Deixo para outros a tarefa de dizer quantos nomes existem para comportamento tão desprezível! Há, ainda, outra grande diferença entre o povão e os ?outros?: durante o carnaval quem sustenta o povão é a breve alegria, a ilusão de serem felizes, a cachaça e um punhado de farinha azeda. Após a festa, voltam à triste realidade, ou seja, a de viverem miseravelmente. Os ?outros?, bem, coitadinhos deles, pois irão continuar com sua ?pobre? vidinha nababesca. Mas, como acima disse, é carnaval, portanto, nada de histórias tristes ou desagradáveis. Como para pessoas que pensam como eu esse tipo de ?socialização? é inconcebível, apesar da grande animação, cá, no Velho Casarão, sozinho eu fico. Fico com minhas sagradas e inesquecíveis lembranças de um tempo onde havia muito mais respeito e sinceridade. (*) É professor da Ufal.

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