Opinião
O tigre dos Palmares
A ?reconversão histórica? de que nos fala Lucien Golgmann (Pour une Sociologie du Roman), na oposição ? presente ? futuro ? que nos traduz um objeto social, no dizer de Michel Zéraffa vamos encontrar em ?O Tigre dos Palmares?, romance vigoroso do filho de Palmeira dos Índios, Adalberon Cavalcante. O drama da escravatura na capitania de Pernambuco, na área ?Engenho de Nossa senhora da Ajuda? mostra o sofrimento dos negros ? ?simples animais de carga? diante da superioridade tirânica do patrão sobre o escravo de uma sociedade repleta de preconceitos, onde se achava que o negro não era gente e por isso mesmo devia ser tratado na dureza, na chibata, no tronco... Ante esse angustiante e deprimente drama social, em que o negro não era sujeito de direitos, senão uma máquina de produção, ecoa o grito humanístico de uma branca ? Dona Beatriz: ?Deus criou o homem e a mulher, sem levar em conta a distinção de raças: nenhuma devia ser superior à outra?. Na verdade, o movimento revolucionário negro, em favor da libertação, inicia vigorosa gestação no próprio Engenho de Nossa Senhora da Ajuda, na fuga de dez casais de escravos que se lançam no matagal com uma vontade quase irreprimível de cantar um hino à liberdade. Esse embrião do primeiro quilombo cresceu, multiplicou-se, aliando numerosas doses de suas crendices, dos seus feitiços, de suas concepções religiosas, de seus temores, de suas superstições... Ao catolicismo tradicional dos conquistadores. Sim, porque os aquilombados libertários eram religiosos e, por conveniência, procuravam intensificar em inumeráveis santos católicos seus deuses africanos. Cada santo da Igreja Católica representava uma divindade negra celestial. Partindo deste fenômeno social degradante, o romancista Adalberon Cavalcante Lins, observador seguro, pesquisador emérito, escorreito escritor, oferece, para gáudio nosso, essa grande epopeia que foi o movimento libertário palmarino, onde se destaca entre, entre tantos, a figura admiravelmente extraordinária do super-herói ? Zumbi. Trata-se de um empolgante ? o vigoroso romance histórico, verdadeiro, em que a opressão desumana, em busca do lucro e do prazer, cria um estado social de revolta, um desejo irreprimível de liberdade pela força, pela violência, pelas armas... Romance violento e terno, de ódio e amor, de mãos que matam e acariciam, ensaiando trânsitos narrativos, às vezes, bruscos e inesperados, como a própria vida dos perseguidos e oprimidos. É o Tigre dos Palmares, sem dúvida alguma, o romance histórico mais completo que se escreveu sobre o, até agora, desconhecido Quilombo dos Palmares. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios e presidente da Academia Alagoana de Letras.