Opinião
Um futuro que entra pelo cano
Por falta de políticas públicas efetivas, de decisão de poder e de ausência de gestão na exploração das reservas de água subterrânea, os técnicos da velha Casal vivem a angústia de não poder ofertar a quantidade imposta pela demanda, especialmente em Maceió. E, pelo andar da carruagem, as perspectivas não são nada animadoras, caso permaneçam o marasmo e a ausência de investimentos. Para completar, há a ameaça de salinização progressiva das reservas contidas no subsolo. Duas baterias de poços artesianos, no baixo Reginaldo e na praça Gonçalves Lêdo, estão desativadas, pois exames laboratoriais já constataram um nível de salinização da água que a torna imprópria para consumo humano. Lá no Norte, em Maragogi, outro poço artesiano também está comprometido pelo mesmo motivo. Enquanto isso, prosseguem a perfuração de poços de forma desordenada e a captação acima do limite de recarga garantida pelo ciclo da natureza. Aí ocorre a despressurização do lençol freático e, como conseqüência, a invasão da água do mar. Em Maceió, 55% da água que abastece a cidade é procedente dos lençóis subterrâneos. Essa equação está errada. Se continuar assim, o sistema vai ao colapso e o povo é quem vai entrar pelo cano. Basta a gente se mirar no exemplo de Recife. O aquífero do Beberibe está salinizado, o que exige da companhia pernambucana a tomada de medidas de calamidade, inclusive realizando rodízios de abastecimento em bairros recifenses. Maceió possui em seu território bons mananciais para captação de água de superfície. O projeto Pratagy, que começou na década de 80, precisa ainda cumprir plenamente o seu papel. Nesse cronograma sem fim, que já alcança 30 anos, a primeira bomba só começou a funcionar no governo Lessa e a segunda, no governo Abílio. Já a terceira bomba, o atual governo não conseguiu viabilizar até hoje. Portanto, o sinal vermelho está aceso. Para reverter a ameaça, basta priorizar e dar ouvidos aos técnicos competentes do Estado. A área ambiental requer mais recursos, para realizar melhor controle das outorgas. Os rios necessitam de proteção, inclusive com suas matas ciliares. Já as cidades devem fazer valer seus planos diretores, a fim de que o adensamento urbano, fruto da especulação e da ganância, não agrave ainda mais a demanda por infraestrutura. Essas conclusões não são devaneios de ?ecochatos?. São resultados de estudos de muita gente responsável, pois as estimativas levam em conta o fato de que a demanda por água nas cidades vai crescer seis vezes nos próximos 50 anos. (*) É jornalista.