Opinião
Cinzas: a retomada
Findo o carnaval, a vida retorna a seu ritmo normal. Segundo o calendário católico, esta quarta-feira é um dia especial, marcando o início da Quaresma ? ou seja, período de 40 dias (sem contar os domingos) nos quais os fiéis devem resguardar-se e refletir sobre a efemeridade da vida e a inevitabilidade da morte, processo que será coroado com a Sexta-feira Santa. As cinzas desta quarta-feira, portanto, são o símbolo maior para o caráter passageiro da existência humana, lembrando aos cristãos a perenidade da vida eterna. O dia de ontem, a terça-feira gorda, ou mardi gras, assinala o afastamento do fiel à carne (daí o exagero, inequivocamente profano, em ?aproveitar? dos prazeres materiais antes dos 40 dias que deveriam ser de resguardo). Infelizmente, os fundamentos originais e o sentido dessas datas, cada vez mais, perdem-se na azáfama cotidiana. Exagera-se no carnaval, aplica-se um ?freio de arrumação? na Quarta-feira de Cinzas, dia meio feriado. A simbologia original, infelizmente, dilui-se, e a data, simplesmente, vai se conformando como sendo ?o dia da ressaca?. Depois desse interregno de 24 horas, a vida segue seu rumo e a quarentena só será lembrada novamente no próximo sábado de Zé Pereira. Independente das crenças religiosas, o sentido das Cinzas mereceria maiores e mais aprofundadas atenções, até porque a dicotomia entre vida e morte, entre valores perenes e interesses perecíveis, extrapola as próprias igrejas e permeia a existência humana. Resumir as Cinzas (em seus significados filosóficos e teológicos) a uma mera ressaca é pobreza de espírito. Faria muito bem à humanidade um pouco de reflexão sobre a vida, especialmente depois de quatro dias vividos tão intensamente e, em muitos casos, tão perigosamente. Como toda ressaca é um processo de ensimesmamento, quem sabe, refletiremos um pouco mais nesta quarta-feira.