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“Eu sei, mas n�o devia”

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Com o título acima, Marina Colasanti (1938) oferece-nos um belo texto, publicado recentemente na Gazeta Digital como sendo de Clarice Lispector, levando-nos a meditar sobre nosso dia-a-dia. Diz que nos acostumamos com muitos incômodos na vida, mas não devíamos. ?Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender cedo a luz. E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão?. Pudesse, transcrevê-lo-ia na íntegra, pois instiga-me pela lenidade com que aceitamos os revezes do cotidiano. Na subjetividade de seu texto, encontramos uma revolta que vai além de tudo o que explicitou. Chega até nossos dias com o que estamos assistindo e, parece, acostumando-nos quando não devíamos. Ao recebermos benesses, que nos oferecem, sem sabermos o por quê. E porque recebemos, estamos vendendo o nosso voto. E porque vendemos o voto, não podemos cobrar. E como não podemos cobrar, temos que ver as mais estapafúrdias atitudes. Vamos habituando-nos aos desvios de conduta de toda magnitude, em todas as esferas; municipal, estadual e federal. Aos mensalões, mensalinhos, dinheiro na cueca, nas meias, nas bolsas, aos Valérios, Dirceus, Genuínos, Silvinhos, Arrudas, e mais, com agradecimentos, pelo furto, em preces cínicas ao Senhor. E acima de tudo a ouvir do Presidente da República que uma foto e um filme, mostrando as malandragens, não dizem nada, sugerindo aos portadores de surdo-mudez afirmarem que, pelo visto, também são cegos. A aceitar projetos que ferem a Constituição sob a égide dos Direitos Humanos, levando a chancela presidencial, mesmo sem que o tenha lido. Depois do velho costume do ?não vi?, agora também tem o ?não li?. E à medida que nos acostumamos, esquecemos as lições de cidadania que recebemos, esquecemos o ambiente sadio em que fomos criados, esquecemos o norte que sempre nos devia servir de guia. E findo com o final de seu texto. ?A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos pouco se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma?. Mas não devíamos. (*) É bacharel em Economia.

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